Nelore Lemgruber - Parte 2

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 09 de agosto de 2018

Na matéria anterior, destacamos que entre os colonos suíços que chegaram a Nova Friburgo, estava o patriarca da família Ignaz Lemgruber, acompanhado da esposa e de seis filhos. Dirigiram-se para Cantagalo se instalando na região onde hoje é o município de São Sebastião do Alto. A ascensão econômica ocorre desde o patriarca e atribuiu-se o crescimento do patrimônio dos Lemgruber em razão de alianças matrimoniais entre famílias imigrantes suíças e igualmente em razão de casamentos entre primos. Os Lemgruber se casaram com os Luterbach, Ubelhard, Monnerat, Wermellinger, Herdy, Boechat e Daflon.

A Freguesia de Nossa Senhora do Monte do Carmo, região que hoje é o atual município do Carmo, ganhou significativa presença dos Lemgruber. Anton Ignaz Lemgruber, filho primogênito do patriarca, foi quem acumulou maior patrimônio. Era casado com Mariana Ubelhard, sua prima, filha de Vicente Ubelhard, igualmente imigrante suíço. Anton Ignaz e Mariana tiveram dois filhos: Antônio Ubelhard Lemgruber, que faleceu antes do pai, e Manoel Ubelhard Lemgruber. Com o falecimento de Anton Ignaz, em 1885, aos 80 anos de idade, seu filho Manoel Ubelhard Lemgruber e netos herdaram expressivo patrimônio. Só de escravos eram mais de trezentos. Manoel Lemgruber, como era comum, se casou com a prima Leopoldina da Glória Ubelhard Rodrigues e dessa união tiveram sete filhos.

Conhecido como Manduca, Manoel era um homem culto, poliglota, formado em engenharia e mecânica, tendo feito seus estudos na Inglaterra e na Alemanha. Além de cafeicultor, era proprietário de uma indústria de fundição no Rio de Janeiro fabricando variados tipos de peças de metal como rodas d’água, arquibancadas, cremalheiras para a ferrovia, placas, grades, etc. Um dos seus produtos mais comercializados era a roda d’água, de grande utilidade nas fazendas para o beneficiamento do café. Foi Manoel Lemgruber quem introduziu a raça zebu no Brasil, dando o nome de nelore em razão de matrizes embarcadas no porto chamado Nelore, na Índia.  O seu contato com a raça zebu foi por acaso. Em 1878, fora participar de uma feira de produtos metalúrgicos em Hamburgo, na Alemanha. Em visita de lazer ao zoológico da cidade, teve sua atenção voltada para um gado diferente, robusto, de origem indiana. Tratava-se da raça zebu. O grande porte do touro atraiu a sua atenção. Estavam expostos zebus conhecidos como ongole, por ser originário da região de Ongole, província de Madras, na Índia. Relacionando a semelhança climática da Índia com o Brasil, negociou a importação de um lote de um touro e duas vacas, chegando ao Brasil em outubro daquele mesmo ano. Manoel Lemgruber descobrira a extraordinária resistência e adaptação do zebu ao clima tropical.

Foi na Fazenda Santo Antônio de Sapucaia, onde nasceu, que desenvolveu a criação dessa raça. Dedicou especial atenção à preservação de sua pureza, iniciando uma progênie que seria conhecida como Nelore Lemgruber. Na Índia, o touro zebu destina-se a puxar peso sendo utilizado para trabalhar em atividade que exija força. Um par de touros puxa em torno de uma tonelada e meia. Mas o gado é extremamente dócil. As vacas possuem extraordinária habilidade maternal dando boa produção de leite para suas crias. Dois anos após a primeira importação, Manoel Lemgruber encomendou novo lote, desembarcando no Brasil em 1880. Três anos depois importa mais um lote e a partir de então passa a possuir um rebanho da raça. Pode-se afirmar que o Brasil iniciava uma nova Era na pecuária.

Os brasileiros estavam habituados a um gado de origem europeia mestiça, sem grande produtividade. Na história do Brasil, o gado bovino era utilizado quase que exclusivamente nos engenhos de cana-de-açúcar como animais de tração das carroças, no transporte da lavoura para o engenho, para movimentar os engenhos de cana, na condução da lenha para os fornos e no transporte do açúcar e da cachaça para os locais de embarque. Igualmente, juntas de bois eram utilizadas para tracionar instrumentos agrícolas, puxar arados e grades no preparo da terra. A comercialização do gado era somente destinada à produção de couro e raramente para a venda da carne. De um modo geral, no contexto econômico, a pecuária foi inexpressiva no país até o final do século 19.

Continua na próxima semana.

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    As vacas da raça zebu dão extraordinária produção de leite

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    Foi na Fazenda Santo Antônio de Sapucaia que Manoel Lemgruber desenvolveu a criação do zebu

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    Manoel Lemgruber introduziu a raça zebu no Brasil

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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