Fazenda do Canteiro - O Barão das Duas Barras - Parte 1

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Fazenda do Canteiro, em Trajano de Moraes. A história dessa propriedade está relacionada com a família mineira Moraes. João Antônio de Moraes, que viria a ser o primeiro Barão das Duas Barras, nasceu em 1810, em Piedade dos Gerais, termo do Bonfim, província de Minas Gerais. Era o décimo filho de doze irmãos, nascidos e criados na província mineira. Deixou a terra natal se mudando para Cantagalo, no princípio do século 19. Viria a se casar com a cunhada, Basília Rosa da Silva, nascida em 1802. O primeiro casamento de Basília foi com o seu irmão, Antônio Rodrigues de Moraes. Dessa união tiveram 5 filhos. No entanto, quando Antônio Rodrigues foi eleito vereador em 1833, na Câmara Municipal de Cantagalo, foi assassinado naquele mesmo ano. Basília, com 30 anos, viu-se sozinha para cuidar de suas terras e dos seus cinco filhos.

O irmão solteiro do falecido Antônio Rodrigues, João Antônio de Moraes, com 23 anos, que já residia em Cantagalo, se casa com a cunhada, se encarregando do trabalho na lavoura e criação dos sobrinhos. Antes mesmo do casamento oficial, realizado em 17 de agosto de 1835, na Fazenda Santa Maria do Rio Grande, o casal já tinha uma filha, tendo mais quatro filhos após o casamento. Segundo a historiadora Marieta de Moraes Ferreira, o plantio do café em Cantagalo permitiu uma extraordinária expansão econômica a João Antônio de Moraes. Em razão disso, em 1867, obteve o título de Barão das Duas Barras. Dezenove fazendeiros dessa região receberam como ele, títulos nobiliárquicos.

A documentação relativa aos bens dos Barões das Duas Barras indica que apenas 1/3 de sua fortuna correspondia a terras, escravos e pés de café. Os outros 2/3 representavam dívidas ativas, ou seja, empréstimos a outros fazendeiros ou parentes, e dinheiro em caixa, depositado em bancos ou nas casas comissárias. Uma série de escrituras de confissão de dívida emprestando dinheiro a juros, comprova a atividade usurária do primeiro Barão das Duas Barras. João Antônio de Moraes teve negócios com Antônio Clemente Pinto, o primeiro Barão de Nova Friburgo. No final do século 19, quase todas as propriedades rurais do Centro-Norte fluminense se encontravam em dificuldades financeiras. Terras sem adubagem por décadas, com cafeeiros improdutivos, e o fim da mão de escrava acarretaram a migração de quase todas as fazendas para a pecuária de leite e de corte, inclusive dos descendentes do primeiro Barão das Duas Barras.

João Antônio de Moraes chegou a possuir 22 fazendas, sendo elas, Santa Maria do Rio Grande, Macabu, Barra, Bonança, Boa Esperança, Coqueiro, Córrego Alto, Engenho da Serra, Engenho Velho, Freijão, Glória, Grama, Monte Café, Neves, Olaria, Paraíso, Ribeirão Dourado, Sant’Alda, São Lourenço, Sobrado, Rio São João, em Minas Gerais e a Fazenda do Canteiro. Aproximadamente 1.000 escravos trabalhavam nessas 22 fazendas. Em virtude da Lei de 1850, conhecida como Lei Euzébio de Queiroz, que abolia o tráfico intercontinental de escravos, era evidente que o trabalho realizado por cativos estava com os dias contados no Brasil. João Antônio de Moraes foi um dos raros fazendeiros que se prepararam para o fim da escravidão. Libertou antecipadamente alguns escravos, lhes doou pés de café e terras, bem como a quarta parte de uma sesmaria em sua Fazenda Santa Maria do Rio Grande. Com esse gesto, garantiu que, com o fim da escravidão, mantivesse os libertos em suas propriedades como trabalhadores rurais. Por isso, de acordo com a memória familiar, se diz que nas fazendas dos Moraes, os escravos não foram embora quando veio a libertação.

Em toda a sua vida, o primeiro Barão das Duas Barras teve costumes patriarcais mineiros. A sua mesa era mineira, frugal e abundante. Nela apareciam regulamente a canjica, as pipocas, a couve mineira, o caldo de unto e a rapadura. Preferia a calça e a camisa de brim mineiro aos finos tecidos importados. Manteve-se um homem rural que não se urbanizou. Não construiu residências nas vilas e não ocupou cargos públicos. Nunca mandou fazer um brasão e não chegou a ter louças e cristais com o seu monograma. No máximo, teve um aparelho de chá de prata gravado com suas iniciais e fez-se retratar, assim como à baronesa.

João Antônio de Moraes faleceu no ano de 1883, e sua esposa Basília no ano seguinte. Em seu testamento pediu para ser sepultado no cemitério da fazenda Santa Maria do Rio Grande e o seu corpo transportado pelos escravos mais velhos.

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    Basília Rosa da Silva, a segunda Baronesa das Duas Barras

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    João Antônio de Moraes, o primeiro Barão das Duas Barras

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    Fazenda do Canteiro, em Trajano de Moraes

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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