Mendigos

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Talvez devêssemos obrigar também os brasileiros mais miseráveis a declararem ganhos e proventos!

Nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai. Ou, dito de outra maneira: as aparências enganam. Por exemplo: todo mendigo é igual, mas alguns são diferentes, dependendo de uma série de fatores, dentre eles a nacionalidade do dito cujo. Uma coisa é ser suplicante em Bombaim, outra é ser pedinte em Paris.  Ainda agora vem de Madrid uma notícia que comprova essa verdade.  Caso você esteja pensando em deixar seu emprego no Brasil e ir esmolar na capital espanhola, saiba que lá o governo obriga os mendigos, moradores de rua e similares a declarem a renda mensal. Seu coração generoso há de dizer que isso é um absurdo, pois quem vive de mão estendida ou passando o chapéu só tem a declarar necessidade, frio e fome. Também lá não falta quem pense assim, e acuse a Receita de querer abocanhar o que não existe. Mas algum faturamento eles hão de ter, senão, qual o sentido da lei?

Na terra de Dom Quixote (mas também do ditador Franco, que se há de fazer?) até quem está na pior da pior das piores consegue algum trocado e, ainda assim, recebe pensão do governo. Ou seja: não precisa ficar ostentando a perna cheia de feridas, falsas e verdadeiras, nem exibindo crianças magrelas para merecer dos passantes um olhar misericordioso, raramente acompanhado da esperada esmola. Olhares piedosos podem servir para aquecer o coração, mas não servem para forrar o estômago. De modo que mais vale uma moeda, embora humildezinha, que ao menos dê para comprar uma bala. Quanto ao mendigo madrilhenho, basta sentar-se na calçada ou encostar-se no muro e declarar-se mendigo - nas horas vagas ou em tempo integral, temporária ou definitivamente.

A partir daí, passa a ter direito a uma graninha dada pelo governo. Mas, para botar a mão nesse dinheiro, precisa apresentar declaração de renda. Assim é não pela dureza do coração dos economistas, nem pelo que se arrecada, uma vez que, se os milionários sonegam, como não haveriam os pobretões de esconder alguns trocados nos bolsos  da velha calça desbotada ou coisa assim? De modo que bem pouco o Poder fatura com essa cobrança. Mas, segundo explicam as autoridades locais, a lei obriga todo espanhol que receba qualquer benefício do governo a declarar seus rendimentos mensais. Nem os mendigos escapam!

Apesar do rigor dessa exigência, pode ter certeza de que o Leão deles é bem mais manso do que o nosso. Ai de nós, brasileiros, súditos do Estado, esse animal pantagruélico, que, não se contentando em ser o Rei das Selvas, tem enormes dentes de aço e, babando e esticando em nossa direção enormes dedos recurvados, nos ataca como os monstros dos filmes de ficção científica. E porque seu dono tem vergonha de dizer o nome completo da fera, ela é conhecida apenas pelos apelidos: IRPF, IOF, CPMF, ICMS... São milhares de apelidos! Com uma das mãos ela puxa para si tudo que há sobre a mesa e, com a outra, devolve as migalhas que sobram do banquete no qual fartamente alimenta a si mesma.

 Talvez devêssemos obrigar também os brasileiros mais miseráveis a declararem ganhos e proventos! João informaria possuir uma ficha que lhe dá direito a, daqui a três meses, ser atendido num hospital em que espera encanar a perna quebrada. Maria mostrará a receita de um remédio que, infelizmente, no momento não existe nos hospitais públicos (e que não existirá até onde a vista alcança no calendário). Joana declarará quatro filhos com fome e Pedro mostrará a carteira de trabalho cheia de vagas, porque não há vagas onde ele procura trabalho.

Enfim, há mendigos e mendigos. Mas alguns são mais mendigos do que outros.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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