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Hans Christian Andersen

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
Em 1805, na Europa Setentrional, início do século XIX, na Dinamarca, em Odense, nasceu um dos maiores escritores de literatura infantil, Hans Christian Andersen, no dia 2 de abril. Dia em que é comemorado, em sua homenagem, o Dia Internacional da Literatura Infantil. Como também, recebe seu nome, o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantil.
Andersen foi um escritor prolífero em diferentes estilos literários. Foi autor de poemas, peças de teatro, romances, poemas e relatos de viagens. Porém conquistou o universo infantil com os contos de fadas, que até hoje encantam a infância de gerações e lugares do mundo, inclusive a nossa e a de nossos filhos. Seus contos foram traduzidos para mais de 100 idiomas, adaptados para o teatro, cinema, desenhos animados e histórias em quadrinhos. Em livros, suas histórias foram editadas individualmente e reunidas em coletâneas.
Com uma produção literária infantil essencialmente criativa, seus textos refletem suas emoções, história de vida e visão de mundo. Ele não compilou, ou seja, não reescreveu os contos populares com bases na linguagem infantil, como fizeram os Irmãos Grimm e tantos autores. Ele se inspirou neles, como “A Roupa Nova do Rei”. Suas histórias fazem profundas reflexões sobre a existência humana ao abordar as adversidades do viver, como em “A Pequena Vendedora de Fósforos”.
Sua obra no âmbito da Literatura Infantil tem atualidade, devendo ser lida e refletida por crianças, jovens e adultos. “O Patinho Feio” é um texto autobiográfico em que ele retrata as dificuldades que passou, quando criança, por ser feio, desajeitado e sofrer bullying. O personagem atravessa várias etapas de num processo de autodescoberta, tema relevante em todas as fases da vida.
A história nos remete à importância da construção da identidade individual. O ver-se, o descobrir-se, o reconhecer-se e o aceitar-se são atos que trazem toda a complexidade de a pessoa olhar para si mesma. O eu, que a pessoa vivencia e observa, encara ela mesma e os outros que coexistem dentro dela. Fernando Pessoa escreveu, através de um dos seus heterônimos em o “Livro do Desassossego”, “a vida que se vive é menos real do que a que se pensa e se escreve”. O Patinho Feio cresceu e descobriu que era, na verdade, um cisne, o mais belo do seu bando. Foi o que de fato aconteceu com Hans Cristian Andersen.
A obra também trata das diferenças individuais que precisam ser refletidas a partir da aceitação e do respeito. Ou seja, as expectativas pessoais relacionadas à culpa e aos desejos, realizados ou não, não devem distorcer a percepção que cada um tem de si, posto que há uma distância entre a forma como alguém se percebe e a sua essência real. É uma obra que motivou vários estudos a respeito da autoaceitação, como a do austríaco Bruno Bettelheim, autor da “Psicanálise dos Contos de Fadas”, que aponta como o “O Patinho Feio” ajuda a criança a lidar com sentimentos de rejeição, com dificuldades inerentes ao crescimento pessoal e com o desenvolvimento dos potenciais existentes.
Já a psicóloga americana Clarissa Pinkola Estés ressalta como a jornada de isolamento é importante para que a pessoa possa conhecer a si mesma, descobrir identidades com pessoas e grupos e não se submeter às pressões sociais.
Sob o ponto de vista educacional, o conto é utilizado nas escolas durante o tratamento do bullying, das relações conflituosas nos grupos de alunos em que haja rejeição e as dores emocionais que causam. As rejeições não podem definir o ser de uma pessoa, o que, infelizmente, acontece quando não se trata.
Outros estudos evidenciam a persistência e a resiliência do protagonista que, mesmo exposto à crueldade, continua sua busca por um lugar onde seja acolhido e respeitado. Inclusive, a Psicologia Clínica descreve a Síndrome do Patinho Feio para definir a sensação de inadequação, estranheza e não pertencimento, sentimentos que interferem nos processos de desenvolvimento da autoestima.
Em cada obra, Andersen cria mundos íntegros e genuínos, enriquecidos com mensagens sociais, psicológicas, filosóficas e éticas. Seus contos têm finais a serem refletidos e não há a ideia de “foram felizes para sempre”. Possivelmente esse modo de conduzir um conto ao seu final tenha lhe permitido conquistar o lugar que ocupa na literatura mundial. A espiritualidade, a transformação interior e a imortalidade são desfechos sábios e reais.
Ler Hans Cristian Andersen é um presente que o leitor dá a si mesmo, independentemente da sua idade. E como é prazeroso ler para crianças, sentar-se na cama de um filho ou neto, antes de dormir, para ler, conversar e acolher.

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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