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Mês do Orgulho: quando existir também é celebrar

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Existe uma característica curiosa nas grandes cidades. Elas são construídas por pessoas completamente diferentes entre si. Diferentes nos sonhos, nas histórias, nas crenças, nos gostos e nas formas de enxergar a vida. E talvez seja justamente essa mistura que faça os lugares crescerem.
Nenhuma cidade se desenvolve porque todos pensam igual. Pelo contrário. Ela cresce porque pessoas diferentes ocupam os mesmos espaços, trabalham juntas, criam juntas e constroem juntas. A diversidade não é apenas uma palavra bonita para colocar em discursos. Ela está presente em cada empresa que prospera, em cada evento que reúne pessoas, em cada projeto que sai do papel e melhora a vida de alguém.
Junho é conhecido como o Mês do Orgulho LGBTQIAP+. E, embora muita gente associe essa data apenas a bandeiras ou manifestações, talvez a reflexão seja muito mais simples do que parece. Talvez estejamos falando apenas da liberdade de viver a própria vida com dignidade.
Porque, no final das contas, a maioria das pessoas quer coisas muito parecidas. Quer trabalhar. Quer ser respeitada. Quer construir uma carreira. Quer encontrar pessoas que ama. Quer voltar para casa em segurança. Quer ter a oportunidade de sonhar sem que sua existência seja colocada em debate o tempo inteiro. Parece pouco. Mas durante muito tempo, para muita gente, isso foi um privilégio e não um direito.
Nem tudo, porém, são flores. Ainda convivemos com números que mostram que o respeito nem sempre caminha na mesma velocidade da sociedade. Durante anos, o Brasil figurou entre os países com maiores índices de violência contra a população LGBTQIAP+, acumulando estatísticas que jamais deveriam existir.
Informações de importantes órgãos de monitoramento apontavam que uma pessoa era morta, em média, a cada 20 horas em razão da LGBTfobia no Brasil. Em 2018, foram registradas 420 mortes decorrentes desse tipo de violência, entre homicídios e suicídios associados ao preconceito.
E com o passar dos anos, a violência mostrou números alarmantes. Em 2010 foram contabilizados 130 homicídios relacionados à LGBTfobia. Em 2017, esse número já alcançava 445 casos — um aumento superior a 240% em apenas sete anos. Mais do que estatísticas, são histórias interrompidas por preconceitos que ainda insistem em sobreviver.
Mas talvez o dado mais importante não seja o da violência. Talvez seja o da transformação. Se há algumas décadas a homossexualidade ainda era tratada oficialmente como doença em diversos lugares do mundo, hoje vemos empresas investindo em inclusão, universidades discutindo diversidade e profissionais ocupando espaços que antes lhes eram negados. Ainda há muito a avançar, mas também há motivos para reconhecer o quanto já caminhamos. E talvez seja justamente aí que o orgulho encontre seu significado mais bonito. Não no confronto. Não na divisão. Não na necessidade de convencer quem pensa diferente.
Mas na celebração das histórias que deram certo. Das pessoas que abriram caminhos. Das pessoas que mostraram que talento, competência e dedicação nunca dependeram de orientação sexual, identidade de gênero ou qualquer outro rótulo que insistimos em criar.
Recentemente, ao refletir sobre esse tema, lembrei de uma dessas histórias. Thiara Galdino Stihler é CEO e fundadora da Vanthi Eventos, empresa especializada em planejamento estratégico para o ecossistema de inovação, investimentos e comunidades de startups. Reconhecida nacionalmente por sua atuação na promoção da diversidade e inclusão, foi eleita Líder de Diversidade e Inclusão no Startup Awards 2024 e recebeu, por dois anos consecutivos (2024 e 2025), o prêmio Transformadora de Startups, concedido pelo Digital Transformation Awards. Apaixonada por transformar eventos em movimentos e criar conexões que geram impacto duradouro, Thiara compartilhou sua visão sobre respeito, oportunidades e a importância de ocupar espaços:
"Acredito que a diversidade vai muito além de uma pauta social: ela é uma ferramenta de inovação, criatividade e crescimento. Ao longo da minha trajetória, aprendi que ocupar espaços também é abrir caminhos para que outras pessoas percebam que seus sonhos são possíveis. Ainda existem desafios, mas vejo um mercado cada vez mais preparado para valorizar competência, resultados e dedicação acima de qualquer rótulo. No fim das contas, o respeito continua sendo a base para construir ambientes mais humanos, mais justos e também mais prósperos."
A mensagem é clara: ocupar espaços também é uma forma de transformar o mundo. É mostrar para os mais jovens que existe lugar para eles. É demonstrar que competência deve falar mais alto do que preconceitos. É provar que o mercado de trabalho apenas ganha quando valoriza pessoas pelo que elas fazem e não por aquilo que elas são. A verdade é que o Brasil está cheio de histórias assim.
Histórias de médicos, professores, empresários, advogados, artistas, servidores públicos, empreendedores e trabalhadores que acordam todos os dias para fazer aquilo que milhões de brasileiros também fazem: trabalhar, construir e seguir em frente.
É preciso respeito
E talvez seja justamente por isso que o respeito seja tão importante. Porque o respeito não exige que todos concordem com tudo. Não exige pensamentos idênticos. Não exige que as pessoas abandonem suas crenças ou suas convicções.
O respeito exige apenas algo muito mais simples: reconhecer a humanidade do outro. Reconhecer que ninguém deveria ser diminuído por ser quem é. Reconhecer que diferenças não são ameaças. Reconhecer que uma sociedade se fortalece quando cria oportunidades para todos e não apenas para alguns.
Ao longo da vida, aprendemos a admirar pessoas por inúmeros motivos. Admiramos quem trabalha duro. Admiramos quem supera dificuldades. Admiramos quem transforma sonhos em realidade. Admiramos quem constrói algo maior do que si mesmo.
E essas qualidades não possuem orientação sexual. Não possuem gênero. Não possuem bandeira. Possuem apenas valor humano. Talvez seja essa a mensagem mais importante deste mês.
O orgulho celebrado em junho não é apenas o orgulho de ser quem se é. É também o orgulho de viver em uma sociedade que, aos poucos, aprende a enxergar as pessoas para além dos rótulos.
Uma sociedade que ainda tem desafios enormes pela frente, mas que também acumula histórias bonitas de coragem, talento e superação. Porque no final das contas, aquilo que realmente importa continua sendo muito simples.
Não é sobre quem você ama. Não é sobre como você se identifica. Não é sobre caber em uma definição. É sobre ter a liberdade de viver sua própria história. E ser respeitado enquanto a escreve.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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