Ignorância e arte

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 24 de junho de 2026
por Robério Canto

As grandezas e fraquezas da natureza humana não são particularidades de ninguém

Vejam vocês o que é a ignorância. Estava eu visitando um museu quando, na entrada da primeira sala, me deparei com uma pequena caixa com várias lixas de unha. Não tendo visto nada que explicasse aquela presença inusitada, pensei...  Não propriamente que tenha pensado, digamos que intui tratar-se de um brinde, uma gentileza de algum patrocinador. Apanhei uma lixinha e enfiei no bolso. Espero que não tenha sido filmado, pois não quero ficar famoso como ladrão de museus. Eis que, percorrendo outras salas, me deparei com várias peças igualmente estranhas. Sim, pois a dita caixa não era outra coisa senão uma obra em exposição, e tanto que, depois reparei, tinha até uma lâmpada iluminando por cima.

Não vou, por causa de minhas poucas luzes, desvalorizar o trabalho do artista. Mas parece que a obtusidade não era só minha, e tanto que os promotores do evento acharam por bem colocar nas paredes placas que explicavam o sentido de cada obra. Foi o que me salvou e desconfio que não só a mim, apesar da cara de entendido que todo mundo ostentava. Quanto às informações sobre as lixas de unha, fiquei tão traumatizado com o furto que nem as li. Furto que, aliás, pouco acrescentou ao meu modesto patrimônio.

Grande é a nossa ignorância, o que sabemos é nada, não mais que um fragmento de grão de areia na imensidão das praias, mares e oceanos. Mas a arte nos faz ser um pouco menos limitados, brutos e insensíveis. Cada obra tem, em si mesma, sua razão de ser, que nem sempre é reconhecida no seu tempo. Talvez seja esse o caso das lixas de unha, quem sabe?

Ao publicar “Madame Bovary”, Flaubert foi acusado de ter escrito um livro imoral. Aos juízes que o questionavam sobre quem era na realidade a personagem do romance, o escritor respondeu: “Madame Bovary sou eu!” Creio que com isso queria dizer que os sentimentos e comportamentos de Emma Bovary estão em todas as pessoas, porque as grandezas e fraquezas da natureza humana não são particularidades de ninguém, estão bem distribuídas entre todos os indivíduos que passam por este mundo.

De Bovary veio a palavra “bovarismo”, que é a tendência que todos temos, alguns em grau doentio, de nos imaginarmos como alguém melhor do que somos, de termos uma ideia fantasiosa de nós mesmos. Emma Bovary vive uma vida sem brilho e um casamento enfadonho. Romântica e sonhadora, acaba se acreditando capaz de despertar uma grande paixão. Também Luísa, de “O primo Basílio”, do português Eça de Queiros, cai na mesma ilusão de ter arrebatado o coração do galã que a corteja.   Na verdade, ambas estão apenas se sujeitando aos desejos de seus sedutores e, claro, vão acabar se dando mal.

Bem, já admiti que não sou nenhum gênio, funda é a minha insipiência. Mas não ao ponto de fazer como aquela pessoa que, quando lhe perguntaram se conhecia a obra de Eça de Queirós, respondeu com outra pergunta: “Quem é essa mulher?” Enfim, a ignorância está ao alcance de todos; a arte, nem sempre.

******

Microconto: Aposta

Desde cedo João vinha notando a diferença, mas só ao conferir os números da loteria ele entendeu por que todos o estavam tratando com tanto carinho.

TAGS:

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.