Lembrar e esquecer

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 27 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Vasculhar o passado e com ele sofrer duas vezes o mesmo sofrimento

“A memória voou da minha fronte”, diz Cecília Meireles, no poema “Despedida”, no qual, como em tudo que escreveu essa poeta superior, transbordam o lirismo, a delicadeza, a espiritualidade. Ler Cecília é mergulhar nas águas infindas das palavras sensíveis, é ser tocado, a um só tempo, pela beleza do verso e a elevação do sentimento.

 “A memória voou da minha fronte” me levou a pensar, não nas alturas poéticas a que sobe o poema (ai de mim!), mas nesses esquecimentos banais do nosso dia a dia, de nossas horas tão sem poesia. Esquecer o nome de um antigo conhecido, esquecer o rosto da que um dia foi amada, esquecer o bem que nos fizeram e também ─ se Deus ajudar ─ esquecer o mal que nos fizeram. Esquecer a data, esquecer a hora. Simplesmente esquecer. Deslembrar.

Alguém estanca à sua frente e dispara: “Lembra de mim?”. Sim, você já viu aquele rosto, talvez com menos rugas e mais cabelos, já olhou aqueles olhos, quando ainda tinham algum brilho, já ouviu aquela voz, quando ela não tremia. Mas onde, Deus meu?! Quando? Como explicar que não é descaso, que não é indiferença, que não é orgulho? É simplesmente que a memória voou de sua fronte.

Às vezes acontece passarmos por uma pessoa que nos dirige um rápido olhar, seguido de um imperceptível gesto de cabeça. Respondemos com igual parcimônia para, segundos depois, nos darmos conta de que era aquela garota que se sentava ao nosso lado no Ensino Médio, na Idade Média, ou um pouco depois. Sim, devíamos ter parado, cumprimentado: “Você não mudou nada!” Mas como encontrar no que nós somos hoje o que fomos outrora? Cecília Meireles já havia perguntado: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Mas também como se lembrar de tudo? Mais ainda: para que se lembrar de tudo? O esquecimento é uma sabedoria do cérebro, e o cérebro não é uma gaveta emperrada que vamos enchendo de papéis velhos, fotografias cobertas pela poeira do tempo, contas pagas e outras por ─ quem sabe um dia ─ pagar. A palavra na hora errada, a pessoa errada na hora da palavra. Disso nos arrependemos, mas arrepender-se deve servir para mudar, refazer, corrigir, não para vasculhar o passado e com ele sofrer duas vezes o mesmo sofrimento.

Cérebro ─ computador que faz por nós o que não saberíamos fazer: decidir entre o que se ergue no espaço da memória, e o que tomba no baú do esquecimento. Dele se esvai tanta coisa, mas outras ficam. E talvez só fique o que realmente vale a pena ser lembrado, pois, como escreveu Drummond, “O que se partiu cristal não era”.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

(Cecília Meireles)

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Microconto: TESTE

Mudou-se para bem longe, a fim de se esquecer daquele homem. Três meses depois, o teste de gravidez provou que ela jamais o esqueceria.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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