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Vida inteira

Paula Farsoun
Com a palavra...
Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.
Junho chega trazendo corações nas vitrines, flores nas esquinas e declarações espalhadas pelas redes sociais. É o mês em que o amor ganha data marcada no calendário, como se precisasse de autorização para ser celebrado. Dia dos Namorados – 12 de junho! Uma data um tanto comercial para um símbolo que realmente merece ser celebrado, porque é o amor resistindo e arrancando sorrisos por aí.
Mas a verdade é que o nunca coube em datas. Ele mora em instantes ao mesmo tempo em que mora em toda uma existência. Ele se faz presente no primeiro olhar trocado sem querer. Na conversa que se prolonga quando já não há assunto. Na estranha sensação de reconhecer alguém que acabamos de conhecer. Passa pela nossa mente que a alma gêmea existe e, que sorte a nossa, podemos estar diante dela!
O amor começa com uma espécie de encantamento. Uma pequena suspensão da realidade. O mundo continua girando, as contas continuam chegando, os compromissos permanecem os mesmos, mas algo muda silenciosamente dentro de nós. Como uma janela que se abre depois de muito tempo fechada. Os namorados conhecem bem esse fenômeno.
O início de uma história de amor costuma desafiar a lógica da importância. De repente, alguém que até ontem era um desconhecido passa a ocupar pensamentos, alterar planos e influenciar decisões. Tudo parece ligeiramente deslocado do lugar. Como se a vida, sem fazer alarde, tivesse acrescentado uma nova cor à paisagem de sempre.
Os namorados são especialistas em fundar geografias afetivas. Transformam esquinas comuns em marcos históricos, cafés em patrimônios emocionais e bancos de praça em monumentos particulares. Anos depois, ninguém mais se lembrará do que aconteceu naquela terça-feira específica de abril. Eles se lembrarão. Porque o amor tem o hábito de conceder eternidade a dias que, para o restante da humanidade, foram absolutamente comuns.
Acho bonito o amor jovem. Ele é cheio de urgências. Quer viver, ver, ouvir, contar, compartilhar. Quer estar perto. Quer conhecer todos os detalhes da vida do outro. É um amor que corre. Que desfruta. Que anseia. Bonito de ver. Lindo de viver.
Mais lindo ainda é o amor maduro. Ele dura, persiste, resiste. Parece naturalmente mais manso, mais resiliente, mais seguro. A vida, sábia como costuma ser, ensina que os sentimentos também amadurecem. E o brilho disso, poucos veem. Uma árvore centenária não é menos bela do que uma muda recém-plantada. Pelo contrário. Ela carrega outras formas de beleza que poucos têm o privilégio de ver.
Os anos vão substituindo algumas emoções por outras. A ansiedade dos encontros dá lugar à tranquilidade da presença. A necessidade de impressionar cede espaço à liberdade de ser exatamente quem se é. Chega um momento em que o amor deixa de morar apenas no coração e passa a ocupar a rotina, a casa, os planos e as memórias.
O amor de anos é passado, presente e futuro interagindo dentro da gente e carimbando uma identidade só nossa. Só a gente sabe. Só a gente sente. Hoje brindo esse amor que dura, porque ele exige profundidade, comprometimento, entrega, decisão e a capacidade de reencontrar a mesma pessoa inúmeras vezes ao longo da vida. Amar a vida inteira a mesma pessoa é um aceite de fazer essa longa, linda e imprevisível viagem que é a vida de mãos dadas, literalmente.
Saúdo os que continuam encontrando razões para rir das histórias, para dividir os mesmos sonhos e para construir novos capítulos quando muitos acreditariam que o livro já estava completo. Neste Dia dos Namorados, gosto de pensar que o amor é menos uma fotografia e mais uma narrativa. E entre uma coisa e outra existe uma vida inteira.

Paula Farsoun
Com a palavra...
Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.
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