Oramos quando admiramos a natureza

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 16 de junho de 2026
por Tereza Malcher

Tem dias que me visto com todas as cores da natureza. Sinto a beleza das flores e a intensidade verde das plantas com suas exatas formas únicas. A variedade da vida brotando no solo silenciosamente. O vento, as matas, as montanhas, o azul do céu, o som da chuva e a arruaça das maritacas. Enfim, a vida farta, diversificada e presente em torno de nós, nos torna tão naturais quanto uma rama de cerejeira que desponta nas terras friburguenses.

No poema “Árvore”, Manoel de Barros verseja que seu irmão “aprendeu com a natureza o perfume de Deus”. Como ele amava os pássaros e as borboletas! Vê-los nos enternece, nos faz sentir um alegre bem-estar azulado e nos descansa. Noutro dia, ao ver uma borboleta enorme branca se aproximar de mim sem cerimônia, perdi o ar. Parecia que ela estava fazendo as honras da casa, um canteiro de mato nas margens de uma trilha. Talvez, para a borboleta, eu fosse uma visita de honra por captar a sensação de respeito que eu sentia pelo lugar, seu habitat.

James Birdle, em seu livro “Maneiras de Ser - Animais, plantas, máquinas: a busca por uma inteligência planetária”, descreve a observação que a primatóloga Bárbara Smuts fez sobre o comportamento dos macacos que viviam livres no Quênia e na Tanzânia. Em 1970 ela observou que eles, inclusive os mais jovens, sempre turbulentos, eventualmente se acomodavam e permaneciam sentados sozinhos ou em grupos, durante aproximadamente meia-hora, contemplando a natureza. Depois, sem qualquer sinal, eles se levantavam e prosseguiam sua jornada.

A primatóloga descreveu-o como uma experiência religiosa, um momento de oração quando se entregavam à observação da natureza; um momento de espiritualidade.

A partir de então, comecei a ficar atenta aos meus cachorros e reparei que eles, também, ficavam por um tempo parados, olhando para o jardim. Também fiz essa experiência durante alguns momentos. Posso dizer que senti uma conexão simples e profunda com todos os seres que estavam à minha volta, como plantas, insetos, borboletas e árvores. Foi uma experiência silenciosa em que pude transcender aos limites do meu corpo. Eu orava através do olhar. Concluí que orar é sentir a presença divina.

Ao perceber a complexidade de uma folha ou mesmo de uma rama cheia de folhas idênticas, delicadamente desenhadas, assimilava a força e o poder de uma árvore, a grandiosidade do céu, a habilidade de um beija-flor. Apreendia a plenitude da vida através de instantes que superavam constatações científicas, ideologias políticas ou diferenças pessoais. Foi uma oportunidade para testemunhar a vida.

Fernando Pessoa sempre buscou em suas poesias superar o eu fragmentado para ir ao encontro do absoluto. Orar ao admirar a natureza é adentrar na humildade, reconhecer que fazemos parte de um todo maior, onde não há necessidade de controle, apenas a percepção de nossa existência ante uma montanha ou uma flor. Estar na natureza é sentir a revelação dos princípios divinos. Nossos deuses habitam na natureza; as raízes das plantas guardam as leis da vida, descritas através dos ciclos, das diferentes formas e modos de ser. Orar ante uma simples rama que brota no solo é um modo de interagir com a origem de todas as coisas.

Nessa oração, o silêncio faz-se carregado de significados que não precisam de enciclopédias ou dicionários para definirem a linguagem da vida. É uma linguagem que dispensa verbos, adjetivos e substantivos. É um estado de paz e união, a forma mais pura de oração que não vai além da capacidade de ver e sentir.

Publicidade
TAGS:

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.