Dez anos buscando ideias e boas palavras

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 23 de junho de 2026
por Tereza Malcher

Se comemoramos o tempo de dedicação a um projeto, festejamos um aniversário ou a conclusão de um curso, por que não comemorar o tempo dedicado à coluna “Momentos Literários”, aqui em A VOZ DA SERRA?.

Sou acolhida por este jornal há dez anos. É uma alegria ver minhas palavras expostas semanalmente em suas páginas, acordar de manhã com uma ideia, desenvolvê-la ao longo de alguns dias, corrigi-la e, em seguida, enviá-la ao Professor Márcio Paschoal para ser revisada com os cuidados de um mestre. Encaminhá-la à redação e relê-la quando publicada. É um processo que cumpro serenamente.  

Precisamos encontrar sentidos que justifiquem o dia que vivemos. Quanto mais pensamos a respeito, concluímos que as atividades que realizamos cumprem pelo menos um propósito que nos é especial. Todos os propósitos abrangem o cuidar. Cuidar é um verbo imenso, que vai além de um ato mecânico. É uma postura que viabiliza a construção do nosso destino. É um modo de zelar pelo que temos. Se passamos a vida construindo pertences, buscamos ferramentas para que possamos nos dedicar ao que conquistamos.

Conquistar a atenção dos leitores é o ponto de partida de cada coluna. São aproximadamente 566 publicações, com a primeira publicada no dia 27 de junho de 2016. Eu me lembro quando fui ao jornal e me apresentei ao Gabriel Ventura Braga, acompanhada pelo acadêmico e amigo Ordilei Alves da Costa. Foi um encontro simples quando falei da vontade que tinha de escrever sobre literatura infantojuvenil.

Meus primeiros passos foram tímidos, inseguros, mas determinados a conquistar o espaço semanal. Visitei livros de vários estilos e autores de diferentes nacionalidades. Li as mais poéticas letras de músicas e as mais criativas histórias em quadrinhos. Viajei pela literatura infantojuvenil e, como não poderia deixar de ser, entrei no mundo imaginário de “Alice no País das Maravilhas”, com a ousadia de pensar “Se Alice tivesse um celular”. Fui repentinamente tomada pela impressão de que o autor, Lewis Carrol, se permitiu total liberdade para imaginar e criar um enredo brilhantemente fantástico e inteligente, capaz de oferecer ao leitor infantil a impressão de que aquele país era real. A leitura de Alice me permitiu concluir que só conseguiria enfrentar o desafio que o jornal me oferecia se eu me desse a liberdade para pensar e criar, superando meus medos e preconceitos.

Se Alice tivesse um celular, tão logo caísse na toca do coelho, ligaria para pedir ajuda. Mas sem esse apetrecho nas mãos, ela teve de seguir em frente naquele fantástico lugar e se espantar, mordiscar pedacinhos da mão direita, achar graça e ficar amedrontada. Exclamar: o que vai ser de mim! Tal exclamação me fomentou a construir a identidade de cronista e ensaísta. Finquei, então, meu pé neste caminho, carregando todos os meus achados e perdidos. Nada deixei para trás.

Logo me deparei com Lygia Bojunga, autora brasileira que recebeu em 1982 o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio da literatura infantil, que guardo no coração e cuido dos seus livros na minha estante. Sua obra tocou minha alma de escritora ao observar o modo como cuidou do universo dos seus leitores. Quem não carrega uma “Bolsa amarela” vida afora, em que guarda todos os desejos?

E, assim fui, de autor em autor, de obra em obra, até pinçar “O Pequeno Príncipe”. Sinto uma afinidade imensa com Antoine de Saint-Exupéry. Ao longo das colunas, o seu pensamento sempre permeou minhas ideias: a simplicidade para encarar a vida, a profundidade para sentir o amor por uma rosa de poucos espinhos que mal podia de defender do vento, a amizade que estabeleceu com a raposa em que ele mostrou a responsabilidade do gostar e a constatação do geógrafo que afirmou que a vida é efêmera. Escrevendo, aprendi a ser alguém digna de uma pessoa que cuida da vontade de dar certo.

A cada coluna fui conhecendo o valor e o poder das palavras. Ao mesmo tempo em que são alimentos, são dengosas e gostam de cuidados. Às vezes, até de adereços. Mas quando aborrecidas e desagradadas tornam-se bruxas capazes de fazer os piores feitiços. A partir de então, não me cansei de pensar sobre as palavras.

As palavras são a essência de todos nós; nascemos e morremos cercados por elas. Preenchem o que fazemos e aprendemos, o modo como interagimos com o outro e com o ambiente. Inclusive, revestem o pensamento individual e coletivo, que são por elas estruturados. A palavra é a expressão cultural mais contundente.

Escrevendo fui aprofundando um dos grandes valores da literatura: fazer-se presente na vida do leitor para aproximá-lo da língua, principalmente a materna: mostrando suas imensas possibilidades, exibindo sua beleza, fazendo-o sentir o perfume e o sabor das experiências. 

A literatura é um excelente meio de acesso ao conhecimento. Conhecimento de si, do outro, do ambiente e do mundo posto que as crônicas, as histórias, os poemas, os textos fundamentados pelas pesquisas emergem da realidade concreta, na qual estamos mergulhados.

Enfim, brindo ao Jornal A VOZ DA SERRA e aos leitores com um cálice cheio de esperanças e alegres palavras.

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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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