As Conferências das Partes (COPs) são encontros para negociações internacionais, concomitantemente visam encontrar soluções locais para o enfrentamento às mudanças climáticas. Sabemos que as soluções não vêm somente dos saberes científicos e acadêmicos, mas também dos conhecimentos populares e ancestrais. Sobretudo, o que tem sido observado é que a prática da organização em grupos e comunidades é uma importante ferramenta para o enfrentamento da crise climática. Na 30ª edição da COP, o Brasil irá fortalecer o elo entre a ciência e os conhecimentos locais.
Uma característica fundamental da COP30 será a participação de comunidades tradicionais da Amazônia, que têm por característica fundamental a conexão com a natureza, a floresta, a água e o rio. Embora não possuam meios científicos para avaliar sua realidade, é através da percepção do mundo ao seu redor que observam as mudanças: a água do rio que está mais quente, uma espécie de peixe que não aparece mais, as sementes para artesanato que já não estão mais disponíveis, as chuvas que já não caem quando deviam, os rios que não enchem mais, ou enchem demais, e as secas inesperadas.
Por estarem tão imersas na natureza, as populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas são as primeiras a sentirem as mudanças climáticas e também são as mais vulneráveis às suas consequências. Hoje, a principal ameaça ao seu modo de vida está associado à segurança alimentar. Nesse contexto, foi em Roraima o primeiro estudo de caso sobre mudanças climáticas feito por indígenas para indígenas. Durante o período de observação, as comunidades na divisa da Guiana com o Brasil viram a mandioca, prato principal dos indígenas, literalmente cozinhar dentro da terra.
No entanto, além dos desafios, existem também as soluções. A agroecologia é uma alternativa sustentável ao modelo agrícola dominante no Brasil, baseado em monoculturas, uso intensivo de insumos químicos e sementes transgênicas, e produção voltada à exportação em larga escala - agravando a degradação do solo, contaminando os lençóis freáticos e contribuindo para a escassez de água. Aproximadamente 90% da produção de alimentos na Amazônia ocorre em pequenas propriedades, o que equivale a um milhão de pequenos produtores. Portanto, o abastecimento alimentar da região depende deles e das suas práticas de agroecologia, que contribuem para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Apesar da sua importância fundamental, a emergência climática já está afetando a produção de alimentos da agroecologia em todo país, conforme pesquisa publicada no final do mês passado pela Articulação Nacional de Agroecologia em parceria com a Fiocruz e outras ONGs, intitulada “Mapeamento Agroecologia, Território e Justiça Climática”. O estudo apontou para redução da produção e qualidade dos alimentos em mais da metade das iniciativas de agroecologia analisadas devido às mudanças climáticas. A versão em inglês da pesquisa será apresentada na Cúpula dos Povos, evento paralelo da COP.
Diante desse cenário desafiador, mais do que nunca, a COP terá o importante papel de fomentar práticas que valorizem a ciência regional, o conhecimento tradicional e as soluções que emergem da realidade local. No caso do Brasil, 73% das emissões dos gases do efeito estufa (GEE) vêm da produção tradicional de alimentos, incluindo o desmatamento para pastos e lavouras. Por isso, as soluções para o enfrentamento da emergência climática precisam focar na transformação dos sistemas alimentares que são cruciais para o Brasil atingir a sua meta de redução de GEE em 50% até 2030.
(*) Isabela Braga é bióloga e cientista climática.

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