A cidade que escolheu falar em versos

Celebrado em 18 de julho, o Dia do Trovador homenageia Luiz Otávio, pseudônimo de Gilson de Castro, considerado o principal articulador do moderno movimento trovadoresco brasileiro
sexta-feira, 17 de julho de 2026
por Marcelo Gonzales
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

No Dia do Trovador, celebrado em 18 de julho, Nova Friburgo reafirma um título conquistado ao longo de mais de seis décadas. Berço dos Jogos Florais, guardiã de uma tradição literária reconhecida como patrimônio cultural e referência nacional para trovadores, a cidade mantém viva uma arte que transformou quatro versos em símbolo de sua identidade.

O que começou como um movimento literário idealizado por apaixonados pela poesia transformou-se em uma tradição que atravessou gerações, conquistou reconhecimento nacional e passou a fazer parte da identidade cultural do município.

Celebrado em 18 de julho, o Dia do Trovador homenageia Luiz Otávio, pseudônimo de Gilson de Castro, considerado o principal articulador do moderno movimento trovadoresco brasileiro. Mas falar dessa data é também contar a história de Nova Friburgo, cidade que acolheu a ideia, fez dela um compromisso permanente e tornou-se, para milhares de poetas, um lugar quase mítico.

Segundo a presidente da União Brasileira de Trovadores (UBT) seção de Nova Friburgo, Elisabeth Souza Cruz, tudo começou muito antes da primeira edição dos Jogos Florais.

"Nova Friburgo criou sua marca no movimento trovadoresco a partir da criação dos Jogos Florais, quando os poetas Luiz Otávio e J. G. de Araújo Jorge lançaram a ideia de um evento literário que pudesse difundir e perpetuar o cultivo da trova. Isso começou em 1958, durante uma viagem de navio até a Bahia. Luiz Otávio registrou em seu diário: 'No navio, nosso assunto não poderia ser outro, a não ser Nova Friburgo'. A frase, escrita ainda em alto-mar, acabaria antecipando uma história que mudaria o cenário da poesia brasileira.”

Durante todo o ano de 1959, Luiz Otávio mobilizou trovadores de diversas regiões do país para organizar aquele que seria o primeiro grande encontro nacional do gênero. Em uma época sem internet, redes sociais ou ferramentas digitais, cartas, jornais e o entusiasmo dos participantes foram suficientes para transformar um sonho em realidade. Em 1960, Nova Friburgo recebeu a primeira edição dos Jogos Florais, tornando-se o Berço dos Jogos Florais do Brasil.

Mais do que um concurso, um símbolo cultural 

O sucesso dos primeiros Jogos Florais foi imediato. Inspirado nas antigas celebrações poéticas europeias, o evento conquistou uma dimensão que ultrapassou o universo literário e passou a integrar a própria história da cidade.

Elisabeth explica que a escolha de maio nunca foi casual. "O mês foi escolhido por ser o mês de aniversário de Nova Friburgo. Os Jogos Florais passaram a integrar as comemorações da cidade. Já o Dia do Trovador, em 18 de julho, homenageia o nascimento de Luiz Otávio. As duas datas se complementam e celebram diferentes capítulos da mesma história."

Ao longo das décadas, os Jogos Florais ganharam prestígio nacional. Para muitos trovadores, conquistar uma premiação em Nova Friburgo representa o ponto mais alto da carreira.

"Há trovadores que sonham em classificar uma trova em Nova Friburgo e virem aqui, ao menos uma vez, receber uma premiação."

Essa admiração acabou rendendo apelidos que revelam a dimensão do evento. "O Oscar da Trova", "A Meca dos Trovadores", "O Sol da Poesia".

Expressões repetidas por participantes vindos de diferentes estados e que traduzem o papel exercido por Nova Friburgo dentro do movimento trovadoresco brasileiro.

Para Elisabeth, entretanto, esses títulos representam muito mais responsabilidade do que vaidade. "O que acontece aqui reflete no movimento nacional. Não é motivo apenas de orgulho. É uma responsabilidade enorme conduzir um legado construído ao longo de décadas."

A poesia espalhada pela cidade

A relação entre Nova Friburgo e a trova ultrapassou os concursos.

Ao caminhar pela Praça Getúlio Vargas, o visitante encontra um verdadeiro roteiro literário. Em 2018, durante as comemorações do bicentenário do município, nasceu o projeto Alameda das Trovas, reunindo poemas dedicados à cidade. Após sofrer atos de vandalismo, a iniciativa foi completamente revitalizada em 2024 pela Fundação Dom João VI e hoje reúne cerca de 120 trovas espalhadas pelo espaço público, escritas por autores de diferentes regiões do país.

A cidade também acumulou reconhecimentos oficiais ao longo dos anos. Tornou-se, por lei municipal, a Cidade da Trova. A trova foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial de Nova Friburgo. Os Jogos Florais receberam o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. São conquistas que confirmam aquilo que os moradores já sabiam havia muito tempo: a poesia faz parte da identidade friburguense.

 

 
Foto da galeria
Foto: Arquivo Pessoal
Publicidade

Apoie o jornalismo de qualidade

Há 81 anos A VOZ DA SERRA se dedica a buscar e entregar a seus leitores informações atualizadas e confiáveis, ajudando a escrever, dia após dia, a história de Nova Friburgo e região. Por sua alta credibilidade, incansável modernização e independência editorial, A VOZ DA SERRA consagrou-se como incontestável fonte de consulta para historiadores e pesquisadores do cotidiano de nossa cidade, tornando-se referência de jornalismo no interior fluminense, um dos veículos mais respeitados da Região Serrana e líder de mercado.

Assinando A VOZ DA SERRA, você não apenas tem acesso a conteúdo de qualidade, mantendo-se bem informado através de nossas páginas, site e mídias sociais, como ajuda a construir e dar continuidade a essa história.

Assine A Voz da Serra

TAGS: