No início da semana, os encontros pré-COP movimentaram Brasília com foco nas negociações que acontecerão oficialmente mês que vem. Como esperado, o evento preparatório não conseguiu um consenso nos quesitos de financiamento – que envolve uma maior contribuição das nações mais ricas e, historicamente, mais responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa (GEE) – nem na redução da dependência dos combustíveis fósseis, que constou como promessa no relatório final da COP28, mas até hoje encontra forte resistência dos petroestados.
Apesar disso, mesmo que os dois dias de pré-negociações tenham acabado de maneira insatisfatória, mas dentro do esperado, a presidência da Conferência ganhou um novo argumento para colocar ainda mais pressão nos países que se encontrarão em Belém: no meio da semana, foi divulgado o relatório anual da Organização Mundial de Meteorologia (WMO, da sigla em inglês), que constatou que os níveis de dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso na atmosfera aumentaram em um ritmo recorde no período de 2023 a 2024, representando o maior aumento de CO2 desde o início das medições modernas em 1957.
O 21º relatório da WMO aponta algumas razões para o aumento recorde observado além da continuação das atividades humanas emissoras de CO2. Em 2024, o ano mais quente já registrado, observou-se um aumento no número de incêndios florestais, como os da Amazônia e África Austral, como uma consequência direta do clima mais seco e quente. Concomitantemente, o ano contou com o fenômeno El Niño, que afeta diretamente o aumento da temperatura global e, por sua vez, interfere na capacidade de absorção de carbono pelos sumidouros naturais (solos, oceanos e florestas). Esse efeito cascata aumenta a concentração dos GEE na atmosfera, elevando a temperatura e agravando ainda mais a atual crise climática.
Outra notícia positiva para Belém foi o Senado ter adiado a votação dos vetos do que ficou conhecido como o “PL da Destruição". Levando em consideração a proximidade do início oficial da Conferência e as consequências para o meio ambiente da derrubada dos vetos, seria um ataque direto a todo o trabalho da diplomacia brasileira feito até agora e poderia ser usado contra o Brasil durante as negociações.
Embora o assunto não esteja resolvido, momentaneamente esta decisão permite que a presidência brasileira da COP continue a pressionar por metas e esforços mais robustos, mas, principalmente, pela efetiva implementação de tudo que já foi acordado em conferências passadas e que já está algumas décadas em atraso.
Portanto, diante das consequências climáticas de mais um ano no atraso de decisões cruciais para o futuro do planeta, essa precisará ser uma COP de ação. O Brasil insistirá no seu papel de líder, já se comprometendo com propostas como zerar o desmatamento ilegal na Amazônia nos próximos 5 anos, aumentar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis, como biocombustíveis, hidrogênio e e-fuel, e a criação de um fundo de investimento internacional (TFFF) com o objetivo de pagar para manter as florestas em pé.
Através de suas ações, o Brasil espera ser exemplo e inspiração para outras nações que se preocupam com o futuro do planeta. Sem esquecer de incluir as demandas e sabedoria dos povos tradicionais.
*Isabela Braga é bióloga e cientista climática.

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