Quem somos quando ninguém está olhando?

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 08 de maio de 2026
por Paula Farsoun

Há algum tempo, eu tinha a sensação de que as pessoas desejavam construir uma vida. Hoje, desejam construir uma imagem. A diferença parece sutil, mas não é. Ela mudou profundamente a forma como nos relacionamos, trabalhamos, consumimos, amamos e até sofremos. Vivemos em uma era em que, para muitas pessoas, infelizmente, parecer feliz importa mais do que estar em paz. Parecer bem-sucedido vale mais do que sentir-se realizado. Parecer inteligente, elegante, produtivo, forte ou desejável tornou-se quase uma obrigação social. O mundo da aparência não é apenas estético. Ele é emocional, profissional e moral.

As redes sociais transformaram a vida em vitrine permanente. Tudo precisa ser fotografável, publicável, admirável. O almoço virou conteúdo. A viagem virou prova social. O relacionamento virou exposição. O treino virou performance. Até a dor, hoje, precisa vir acompanhada de filtro, legenda reflexiva e iluminação adequada. Criou-se uma geração que documenta a vida sem necessariamente vivê-la.

Parece que as pessoas não saem mais para descansar; saem para produzir registros de felicidade. Não compram apenas pelo desejo ou necessidade, mas pelo impacto visual e simbólico que aquilo causará nos outros. O consumo deixou de ser material. Tornou-se emocional. Compra-se pertencimento, validação e status.

E talvez um dos aspectos mais tristes desse fenômeno seja a obrigação silenciosa de parecer constantemente bem. Há uma censura emocional contemporânea que impede o cansaço, a vulnerabilidade e o fracasso de existirem de forma legítima. Todos precisam aparentar controle, equilíbrio e sucesso, ainda que estejam emocionalmente exaustos.

A estética da perfeição adoece porque ela é incompatível com a condição humana. Ninguém consegue sustentar felicidade contínua, produtividade absoluta e beleza impecável sem pagar um preço psíquico por isso. Mas, ainda assim, seguimos assistindo pessoas transformarem a própria existência em campanhas publicitárias de si mesmas. E essa lógica não ficou restrita ao universo pessoal. Ela invadiu o ambiente profissional em várias camadas.

Aqui não me proponho a fazer um juízo de valor se isso é bom, ruim, necessário ou qualquer outra coisa. As coisas são como são. E as vejo dessa forma. E claro, por ora, lamento, embora entenda o porquê de tudo isso. Sem dúvida, vejo com preocupação, sobretudo em relação aos mais jovens, às pessoas em formação. Felicidade boa é aquela que a gente sente dentro da gente. Aquela que a gente identifica e sorri. Que compartilha com quem se importa com ela. Felicidade boa é sentida e não fabricada, produzida e compartilhada com quem nem sabem quem somos.

O ponto de reflexão não está em comunicar, posicionar-se ou construir imagem. Isso faz parte do mundo contemporâneo. O problema começa quando a imagem substitui a essência. Quando a embalagem se torna mais importante do que o conteúdo. Quando parecer competente vale mais do que estudar. Quando parecer feliz importa mais do que estar emocionalmente saudável.  Diante dessa realidade que todos estamos vivendo, quem somos quando ninguém está olhando?

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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