A Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU) começou de maneira inédita esse ano com a agenda formal aprovada (145 itens divididos em cinco categorias) e as negociações começaram já no primeiro dia. Para destravar as negociações iniciais, a diplomacia brasileira retirou da agenda formal quatro temas sem consenso: financiamento climático, medidas unilaterais de comércio, déficit das metas nacionais de redução (as NDCs) e relatórios de transparência sobre ações. Entretanto, esses temas mais complexos foram tratados ao longo da semana em outras reuniões e continuam na próxima semana até encontrarem, ou não, um consenso.
Outra conquista brasileira foi conseguir juntar 194 delegações em Belém, mesmo diante da ausência dos chefes de estado dos principais poluidores, e mais de 56 mil participantes inscritos, ficando só atrás da COP28 (Dubai). No entanto, a magnitude do evento expôs falhas na estrutura e segurança, o que foi motivo de envio de uma carta da ONU ao governo brasileiro. É uma grande COP sediada em uma área urbana no coração da Amazônia, sujeita a chuvas no final da tarde que alagam a cidade e deixam todos sem energia elétrica. Afinal, a experiência busca ser completa.
Para além de tudo o que ainda pode dar errado em Belém, tem também tudo o que pode dar certo. Mesmo não sendo um tema da agenda formal, espera-se como uma “decisão de capa” da COP, um mandato para o “mapa do caminho”, que indicaria como a humanidade vai se livrar da dependência dos combustíveis fósseis - todos os países, em maior ou menor grau, dependem do petróleo. Essa será uma costura diplomática complexa, pois precisa ser definido quem começará a transição energética e quem pagará para que ela seja justa e equitativa.
Paralelamente à essa discussão, a diplomacia tenta destravar o debate em torno da adoção dos indicadores da Meta Global de Adaptação, que são ferramentas para monitorar o avanço da adaptação nos países e seriam o ponto de partida para viabilizar o financiamento de ações concretas. Porém, o representante do grupo de 54 países africanos quer estender o trabalho técnico por mais dois anos alegando não ter condições financeiras de implementar as estruturas necessárias de monitoramento.
Apesar dos impasses em algumas frentes, o que temos de concreto até agora é uma aliança dos países amazônicos de monitoramento em conjunto para conter o desmatamento e queimadas no bioma; a União Européia doou para o Fundo Amazônia; o BNDES, em parceria com instituições financeiras internacionais, anunciou R$ 21 bilhões de investimento para a transição energética, com potencial de mobilizar R$ 73 bilhões em projetos descarbonização industrial, agricultura verde, reflorestamento e conservação ambiental.
Dessa maneira, a primeira semana da COP em Belém se encerra com um saldo paradoxalmente promissor. Há, sem dúvida, um espírito de colaboração no ar e investimentos concretos que sinalizam um caminho. No entanto, os fantasmas de sempre - como a eterna disputa sobre quem pagará a conta da transição - permanecem à espreita.
Em um contexto geopolítico desfavorável, cada pequeno avanço em Belém é uma vitória do multilateralismo. Resta saber se a diplomacia conseguirá, na semana decisiva que se inicia, transformar o espírito de cooperação em acordos robustos e obrigatórios. O futuro do clima, afinal, não pode ser construído apenas com palavras e boas intenções.
(*) Isabela Braga é bióloga e cientista climática.

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