Notícias de Nova Friburgo e Região Serrana
Lugar-comum
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
Mais abatido do que time que perde a partida “no último segundo do segundo tempo”
De vez em quando comento aqui algumas palavras, o que talvez já esteja enchendo a paciência dos leitores. Em todo caso, o leitor tem sempre a possibilidade de pular para a coluna mais próxima ou para outra página. Sina triste é de uma pessoa aqui de casa que é obrigada a ler tudo que rabisco, por obrigação contraída no civil e no religioso (até que a morte vos separe, etc., etc., etc.).
A minha ignorância sobre etimologia é profunda, ampla, geral e irrestrita, mas às vezes leio algo que me chama a atenção. Por exemplo: a palavra “marechal”, que o dicionário da ABL define como “o posto superior na hierarquia do exército”, título que, no Brasil, só pode ser concedido a quem comandar soldados em tempos de guerra. Pois, vejam vocês (que nenhum marechal nos ouça), mas no século XIV essa palavra tão imponente significava “indivíduo que cuida dos cavalos”. Para piorar, originalmente compunha-se de “cavalo amestrado”, e “escravo”. Ou seja, escravo de cavalo amestrado. É o que ensina o “Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa’, de Antônio Geraldo Cunha.
Também andei pensando (isto é, pensei enquanto andava) em palavras e expressões que, de tão usadas e abusadas, tornaram-se clichês, banalizando nossa fala e nossa escrita. Como estou com preguiça de pensar (o que já é um lugar-comum), não fiz muito mais do que alinhavar algumas delas.
Suponhamos que alguém lhe diga que você não tem um “pingo de vergonha na cara”. Você tem uma “vaga lembrança” de conhecer aquela pessoa, mas não tem a mais “pálida ideia” do que ela está falando. Talvez ela haja movida por uma “ponta de inveja”. Você observa nela certa “ingenuidade infantil” e também “sinais de ciúme”. Na sua “amarga decepção”, você lembra que “quem vê cara não vê coração”. Não querendo ficar com “cara de palhaço”, você a convida para um “dedo de prosa”, acompanhado de uma “generosa dose de uísque on the rocks”. Quando nenhum dos dois está mais enxergando um “palmo diante do nariz” e a voz está “por um fio”, saem do bar e, se tiverem uma “sorte danada”, daquelas de quem “nasce virado pra lua”, acabam chegando em casa, graças à “iluminação feérica” das ruas.
Lá você encontra aquele “pedaço de mau caminho” que é a sua “cara-metade”. Num “assomo de coragem”, resolve enfrentar o “rompante de raiva” dela, que pode chegar a “acessos de fúria”, pois há uma “sutil diferença” entre os dois “estados de ânimo” da “patroa”. Após um “momento de indecisão”, reconhecendo que você só tem “escassos recursos”, quando ela está “beirando o desespero” ou “as raias da loucura”, você aponta para o “pingo de gente” que está dormindo “no recinto sacrossanto do lar”. Ela então, levada por um “instinto maternal”, fica “meio sem graça” e lhe concede “um “sorriso amarelo”. Não é a “calorosa recepção” que você esperava, mas, de certa forma, é uma “crítica construtiva”.
Na manhã seguinte, “mortalmente arrependido”, pois, sem “sombra de dúvida”, a situação não está muito boa para o seu lado, e sabendo que ela está “coberta de razão” ─ pra falar a verdade, com “carradas de razão” ─, você evita “cair no ridículo”, “sai de fininho” e,” de cabeça baixa”, vai ganhar “o pão de cada dia”, mais abatido do que time que perde a partida “no último segundo do segundo tempo” e vai direto para a “zona de rebaixamento”. Na mesa de cabeceira, fica um bilhete, escrito em “letras garrafais”: “Um beijo no coração”
Mas, “no fim das contas”, ou seja,” por último, mas não menos importante”, e não tendo como “fechar com chave de ouro” esta conversa “sem eira nem beira”, só me resta confiar na “santa paciência” dos leitores e fazer “sinceros votos” de que eles voltem a esta coluna na próxima quinzena. Afinal, “a esperança é a última que morre”.
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Deixe o seu comentário