A epidemia de febre amarela em Nova Friburgo

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 19 de março de 2020

A primeira grande epidemia de febre amarela no Brasil ocorreu no ano de 1685, trazida pelos navios negreiros que transportavam escravos africanos. Terrível e mortífero flagelo teve início em Recife-PE onde aportou um tumbeiro trazendo o mosquito Aedes Aegypti, vetor que somente seria conhecido muitos séculos depois como transmissor da doença.

Essa epidemia perdurou por quase 15 anos com pequenos intervalos de calmaria. Do norte propagou-se para o sul do país causando milhares de vítimas principalmente entre os brancos e os indígenas, poupando os africanos. A epidemia de febre amarela no Brasil iria se manifestar novamente em 1849, em Salvador-BA, alastrando-se novamente pelo país.

No Rio de Janeiro essa epidemia ceifou vidas de senadores, ministros, aristocratas e burgueses induzindo essas personalidades de prol a se refugiarem nas partes altas da cidade, como no bairro de Santa Teresa, e nos subúrbios. A partir de então, as epidemias de febre amarela serão intermitentes em quase todas as províncias do Brasil. No Rio de Janeiro adquiriu caráter endêmico-epidêmico e passou a ser evitada por viajantes ficando conhecido como o túmulo do estrangeiro.

A Junta Central de Higiene Pública criada para combater a epidemia aconselhava os habitantes a não se aproximarem dos pântanos que exalavam miasmas e se acreditava ser a causa da doença. A ignorância sobre a sua etiologia ocorreria até que o médico baiano Filogônio Lopes Utinguassu aventasse pela primeira vez no país a tese de que a febre amarela era transmitida por um mosquito, hipótese que seria confirmada pelos médicos de Cuba.

No ano de 1850, em decorrência de uma epidemia de febre amarela ocorrida na Corte, o Imperador D. Pedro II é aconselhado a retirar-se com a família para a Imperial Fazenda do Córrego Seco que ganharia, por decreto, status de vila com o nome de Petrópolis. É bem provável que nessa ocasião tenha sido recomendada a vila de Nova Friburgo reconhecida pela salubridade de seu clima e notadamente porque a família imperial tinha duas propriedades no município, as fazendas Córrego Dantas e São José. Mas Petrópolis venceu pela proximidade com o Rio de Janeiro.

D. Pedro II iniciaria, desde então, o hábito entre a elite do deslocamento para regiões serranas durante a canícula, ou seja, na estação de calor intenso em que a febre amarela matava milhares de pessoas de todas as classes sociais. O município de Nova Friburgo já era procurado por tuberculosos desde a fundação da vila e ressurge no mapa da geografia médica como um local salubre por suas condições climáticas e mesológicas. Já na República, beneficia-se cada vez mais do infortúnio das epidemias na capital federal.

Conforme a imprensa local, Nova Friburgo era a segunda cidade do Estado do Rio de Janeiro mais procurada pelos veranistas cariocas ultrapassada apenas por Petrópolis. Essa migração impulsionou a economia local, notadamente o comércio, a hotelaria e a construção civil na edificação de casas para aluguel. Um detalhe importante é que estes cariocas ficavam aproximadamente seis meses em Nova Friburgo, chegando normalmente em novembro e partindo entre abril e maio.

A fama da salubridade do clima friburguense tornava o município seguro e nunca fora registrado um caso de epidemia dessa doença. Os veranistas que não alugavam casas se hospedavam nos confortáveis hotéis como o Hotel Central, hoje Colégio Nossa Senhora das Dores, hotéis Leuenroth, Engert e Salusse, sendo esses os mais procurados.

Por conta desses veranistas, companhias italianas permaneciam em média dois meses em Nova Friburgo a exemplo da Companhia Lírica Italiana Verdini & Rotoli, representando óperas no Teatro Dona Eugênia como Lucrécia Borgia de Donizzetti, Carmen de Georges Bizet, Aida de Giuseppe Verdi e Fausto de Goethe, para ficar em alguns exemplos. Soirées eram promovidas nos hotéis onde se dançava quadrilha, valsa, polca e mazurcas.

Durante o dia os veranistas faziam passeios campestres pelos arrabaldes da cidade, estando na moda os picnics, comendo-se sandwiches regados a champanhe Veuve Clicquot. Corridas de cavalos eram promovidas pelo Friburgo Jockey Club no prado de Conselheiro Paulino, aos domingos. As epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro mudariam o cotidiano de Nova Friburgo durante algumas décadas. 

  • Foto da galeria

    A elite friburguense que participava dos picnics

  • Foto da galeria

    Os jardins do outrora Hotel Central, hoje um colégio

  • Foto da galeria

    Isolamento de uma residência no Rio de Janeiro

Publicidade
TAGS:
Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.