Nudez militar

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 11 de março de 2026
por Robério Canto

Velhos tempos, em que usar mangas curtas já era suficiente para despertar desejos proibidos

Eu tinha dezoito anos, era um rapazinho desinformado das coisas do mundo, mas, se bem me lembro, naquela época andar nu em público ainda não tinha virado moda. No entanto, lá estava eu, pelado no meio de outros cinquenta ou sessenta jovens igualmente pelados, todos sem saber onde botar as mãos e os olhos. O governo havia me chamado para servir à Pátria, mas bastava me olhar para saber que eu era inservível, incapaz de atirar uma granada mais distante do que uma cusparada. Carregar peso, não mais do que dois quilos; correr, não mais do que cinquenta metros. Tudo isso eu teria confessado, sem precisar tirar a roupa.

No entanto, o Exército Brasileiro, ali presente na pessoa de dois ou três de seus bravos representantes, nada me perguntou e nada perguntou aos demais convocados para o exame. No Ginásio Celso Peçanha, as arquibancadas estavam cheias de caras semelhantes à minha, as mãos cobrindo como podiam as chamadas partes íntimas, todo mundo com medo de alguma intimidade.

Quando acharam que estar sentado no cimento frio já era castigo bastante, mandaram-nos levantar e entrar em fila. Se alguém já entrou em uma fila de homens nus, há de saber que não é uma situação propriamente agradável. A menos que fossem aqueles índios que Cabral encontrou em 1500, os quais não se preocupavam em esconder “suas vergonhas”, como lá diz Pero Vaz de Caminha, na famosa Carta do Descobrimento. Mas acho que mesmo eles evitavam entrar em fila.

Não que eu seja a favor do uso da burca, que esconde a lindeza feminina. Também esconde a feiura, mas, como na média há mais mulheres bonitas do que feias, o prejuízo causado pelas burcas é bem grande. E também não acho que devemos retornar ao terno, colete, paletó, gravata e galocha. Mas quanto mais se retorna no tempo, o que mais se vê são pessoas cobertas de pano. Basta ler o excelente, excelentíssimo conto “Uns braços”, de Machado de Assis.

Nele, a família abriga um rapaz de quinze anos, que trabalha de graça para o dono da casa. O pobre rapazinho vive enamorado da patroa, cujos braços não se cansa de olhar sorrateiramente e amar secretamente. Não que a mulher vivesse de biquini na piscina, ou andasse de short pela casa. Nunca o inocente Inácio tinha visto mais do que os braços, que ela ousava manter descobertos. Velhos tempos, em que usar mangas curtas já era suficiente para despertar desejos proibidos.

Sem ter como evitar, entrei na fila e fui seguindo, ora admirando o teto, ora contemplando o chão. E tanto demorou a caminhada que acabei sabendo de cor quantas vigas havia em cima e quantos pisos havia embaixo. Um a um, todos os futuros soldados (ou não) foram todos se apresentando, medidos, apalpados. Os considerados aptos iam para um lado, os demais ouviam um seco “dispensado” e saiam rapidinho, antes que os homens mudassem de opinião. Quando finalmente cheguei diante da autoridade, mastigava um dilema: não queria servir ao Tiro de Guerra, pois já então era contra tiros e contra guerras. Mas também sabia que a dispensa significava ter sido considerado um fracote. E foi isso que, por outras palavras, menos delicadas, me foi dito com franqueza militar.

Lá se vão muitos anos e, bem ou mal, o Exército Brasileiro tem sobrevivido sem mim. Que assim continue, para a felicidade dele e minha.

.............................................................................

Microconto: FIM

Depressivo, sentia-se sempre à beira de um abismo fatal – até o dia em que deu um passo à frente.

Publicidade
TAGS:

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.