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Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 22 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

1.     Um dos nossos excelsos deputados apresentou projeto de lei que permite que passageiros viajem de avião com arma de fogo (descarregada, mas com munição à parte ─ na mala, na pasta, no bolso ou na cueca). Segundo o nobre parlamentar, certamente um pacifista, isso atende ao “interesse público”. Para maior perfeição da lei, agentes das forças policiais e armadas poderão embarcar com a arma já pronta para prestar serviço ao seu portador, à moda do que se vê nos filmes americanos. 

Não sei se o digno representante do povo tem acompanhado o noticiário nos últimos tempos. Talvez os seus múltiplos afazeres em defesa da população o impeçam de saber o que está acontecendo nos céus do Brasil. Mas o fato é que frequentemente se têm visto brigas dentro de aviões. E não simples bate-bocas, mas agressões físicas, marmanjos rolando pelos corredores, senhoras gritando, crianças assustadas. Se aprovada a lei, seria recomendável que as empresas aéreas fornecessem coletes à prova de bala aos passageiros e à tripulação.  Enfim, quem quiser que embarque nessa, que eu prefiro ir a pé e chegar vivo. Como diria Raul Seixas, eu não nasci para tirar onda de herói. Muito pelo contrário.

2.     Eu não acompanho novela porque não tenho paciência. Pela mesma razão não participo de grupos de leitura: esse negócio de ler com intervalos, uma página por semana, não é comigo. Quando ataco um livro, vou o mais direto que posso para a última página. Às vezes, quase chego ao fim antes do autor e dos personagens. De modo que eu não conheci Odete Roitman, talvez a mais importante figura da vida nacional nos últimos tempos. Não sei quem a matou e jamais levantei suspeita contra qualquer personagem. Ouvia comentários a respeito e ficava mais calado que goleiro na hora do pênalti. Afinal, falso testemunho é crime e pecado. 

No entanto, dou meu total e inútil apoio ao padre de Santa Catarina que se recusou a celebrar missa pela alma dessa senhora. Ele disse não ao pedido, recusando-se a rezar por alguém que simplesmente nunca existiu, a não ser na tela da TV. Esse pessoal está confundindo as coisas! Há pouco tempo pediatras foram atormentados por “mães” que levavam seus bebês reborns para consulta. Imagine a cena: “Seu filho não tem nada, minha senhora. Literalmente nada! Coração calado; cérebro vazio, aparelho respiratório inoperante. Olhos mortos, voz engarrafada”. A coração de mãe tudo se perdoa. Ou quase tudo: batizar bonecos também já é demais, não tem cristão que aguente!

3.     Acaba de ser descoberta uma família na cidade de Patos, no Pará, que de pato não tinha nada. Há anos pai, filha, irmãos e sobrinhos fraudavam concursos públicos com grande sucesso, já tendo garantido colocação para dezenas de brasileiros, assim colaborando para a queda do desemprego no país. Seus beneficiados estão por toda parte: estatais, polícias, judiciário. Com eficiente profissionalismo, usavam as mais modernas técnicas para prestar bons serviços a seus clientes. Conseguiam com antecedência os gabaritos, contratavam dublês para substituir candidatos inseguros, instalavam “pontos” tão perfeitos que nem o melhor otorrino descobriria. Até se submetiam às provas, alcançando resultados que deixavam claro que a aprovação era garantida. Mas, talvez por honestidade e modéstia, não assumiam os cargos. Começaram, no entanto, a exagerar. Chegaram a aprovar três candidatos no mesmo concurso, todos errando e acertando as mesmas questões. Aí a polícia foi obrigada a tomar uma providência.

O fato é que somos um povo muito criativo. Basta ver que, embora nenhum brasileiro tenha recebido o Prêmio Nobel até hoje, muitos de nossos conterrâneos se beneficiam diariamente da invenção do senhor Alfred Nobel. Por exemplo, usando a dinamite para explodir caixas eletrônicos. Sim, não há como negar que somos um povo muito criativo, que pode não inventar grandes coisas, mas sabe como usá-las.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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