Quase poesia

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 10 de junho de 2026
por Robério Canto

É impossível evitar: não há quem, de vez em quando, não seja atacado pela tentação de escrever poesia. Comigo acontece de, às vezes, estando eu com o pensamento concentrado em coisa nenhuma, um punhado de versinhos desabar sobre mim. Qual o jeito, senão transcrevê-los? Paciência, leitor!

 

Fundo do Poço

Não brinque com meu coração,
seu moço,
que, se a tristeza tem fundo,
meu coração já está
no fundo do fundo do poço.

 

Não me faça esse alvoroço,
que entre o amor e o ódio
a distância é bem menor
que entre a fruta e o caroço.

 

Meu coração tem andado
com a corda no pescoço,
e qualquer aperto a mais
será o fatal esforço.

 

Se é só por brincadeira,
Não me chegue assim tão perto.
Quero é um moço que seja
água no meu deserto.

 

O Cachaça

A paisagem que eu tenho é o vão da janela.
O espaço que eu tenho é o ônibus lotado.
Às sete e dez chego no trabalho:
“Atrasado!”, é o que ouço.
Peço desculpas e engulo calado.
Não fosse a criança em casa,
ou já indo pra escola,
não sei se eu ficava ou ia embora.
Na volta para o lar, eu tomo um trago,
ou dois ou três, quem sabe quatro,
e me chamam O Cachaça.
Brasileiro, trabalhador e pai,
por mais que eu faça
sou sempre O Cachaça.
Madrugada abro a janela
e vejo em frente um muro escuro,
duro, frio e ruim,
de outro brasileiro como eu,
outro Cachaça igual a mim.

 

Aurora

Aurora merecia o nome que tinha.
Quando ela entrava,
a sala toda amanhecia.
E que sorriso tinha Aurora,
dentes brancos de alegria!
Era bom ver aquela cara,
rara, clara, iluminada,
como um dia que amanhece
cheio de luz: claridade.
Mas eis que aconteceu:
um dia sentiu-se mal,
médico, ambulância, hospital,
e, subitamente, a sala anoiteceu.

 

Passarinho

Para Luísa Lacerda

Essa voz de passarinho
faz a manhã abrir os olhos
e o sol adormecer.
É sombra de nuvem fina,
abrigando trovoadas.
É como a pessoa amada
que chega sem avisar.
É feito água do rio,
que nunca está onde está.
Riso de criança, choro de gente grande,
que às vezes nos acolhe,
outras vezes nos espanta,
e pode ser tudo isso
porque tudo pode uma mulher que canta.
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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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