Palavras, livres, leves e loucas

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 09 de junho de 2026
por Tereza Malcher
Será possível deixar as palavras livres? Uma espécie de descanso, como um presente se pensarmos que elas trabalham dia e noite, mesmo durante o sono quando o pensamento atinge a mais profunda e verdadeira expressão. Os processos cognitivos interpretam e reinterpretam os fatos, buscam soluções às dificuldades, pesquisam nos arquivos das memórias ideias para atender os desejos. Funcionam como rede de proteção, posto que passamos a vida dando saltos, por vezes mortais. Estruturado por palavras, do nascimento à morte, o pensamento nunca descansa.
Nos momentos de necessário relaxamento, o melhor é oferecer à mente pensante liberdade para usar as expressões que bem quiser. O pensamento sem palavras fica sem rumo!? O que a ausência de caminhos pode significar aos processos reflexivos? Contudo, nos momentos de vazio é que será possível fazer interessantes descobertas; os artistas e os cientistas sabem disso. É no vazio que a criatividade habita.
As palavras encontram significados nos contextos existenciais de cada vivente. Certa vez, escutei de uma amiga que nunca se esqueceu da frase de um filho. Quantas vezes, na leitura de um livro, lemos uma palavra que fica conosco e nunca a esquecemos. Uma palavra que guardei na leitura de “O Pequeno Príncipe” foi “efêmera”, quando Saint-Exupéry quis dizer que tudo caminha para um fim. Ah! As palavras são sábias!
Por vezes, as palavras fortes e inesquecíveis escapam, fugindo do discurso organizado. Essas rebeldes e inoportunas dizem tudo! Inserida nos atos e discursos falhos, elas, carregadas de sentido, encontram brechas para escapar entre as palavras sequenciadas, por vezes com pouco sentido. Freud explica. Como elas andam por aí, entre bocas, burlando censuras, resulta de a psicanálise estar cada vez mais enraizada entre nós. Que dela tanto precisamos para compreender nossos desejos inquietos, expressos em todas as palavras que dizemos.
É atribuída ao escritor Victor Hugo a frase: “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.” Desde a Antiguidade até os dias de hoje, nos tempos das Inteligências Artificiais, as palavras constituem o grande poder da humanidade. Qual guerra que não foi decidida através delas? Os tratados de paz, contratos e escrituras são estabelecidos por meio das palavras. Em tempos das redes sociais, as palavras são as imperadoras do destino de sujeitos, grupos e nações.
Ao mesmo tempo que expressam bondades, descrevem maldades; tal qual as verdades e as mentiras. Não há amor que não seja por elas declarado, nem o desamor delas escapam. Os risos e as lágrimas são amparados e margeados pelo dizer, da mesma forma os incentivos e o fazer silenciar.
As palavras nascem em fontes abundantes de afetos, desejos e informações. Desencadeadas em frases, as palavras se gostam tanto que vão puxando umas às outras nos discursos, nos poemas, nas letras de música. Buscando esse encadeamento para expressar, no início da adolescência, aos 14 anos, o poeta Paulo César Pinheiro escreveu a letra da música, “A viagem”, lançada em 1973”. Na voz de Marisa Gata Mansa e na criação musical de João Aquino Monteiro, é uma obra-prima, musical e poética, que vai na alma, embevece e nos faz viajar.
 
Ó, tristeza, me desculpe,
Estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
 
Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando desde muito longe
Lá do fim do mar
 
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida
Querendo brincar
 
Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar
 
Olha quantas aves brancas, minha poesia
Dançam nossa valsa pelo céu que um dia
Faz todo bordado
De raios de sol
 
Ó, poesia, me ajude
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias
Pelos campos verdes
Que você batiza de jardins do céu
 
Mas pode ficar tranquila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela guia
Num clarão de lua
Quando serenar
 
Ou talvez até, quem sabe,
Nós só voltaremos no cavalo baio
No alazão da noite
Cujo nome é raio, raio de luar
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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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