Lembra de mim?

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Lembrar ou esquecer são mistérios da memória

Estou eu passando pela calçada, metaforicamente perdido em pensamentos sobre meu cavalo, como na música de Renato Teixeira, quando de dentro de um bar uma voz meio arrastada exclama o meu nome.  Atrás dela vem um quase rapaz, quase senhor, e na mão dele um oscilante copo de cerveja. A mão desocupada se estende em minha direção, e eu não sou de recusar aperto de mão de ninguém, ainda que o dono esteja meio inseguro sobre as pernas. “Você é o melhor professor de matemática que eu tive!”, declara ele, de modo que eu e todo o bar possamos ouvir.

Também não sou de recusar elogios, ainda mais quando imerecidos. No caso presente, concluo que o ex-aluno, se errou na disciplina, acertou no adjetivo. E não é por ele ter tomado umas cervejinhas que eu vou achar que ele não sabe o que está falando. Mas a verdade é que sempre houve entre mim e a matemática uma certa incompatibilidade, até mesmo uma hostilidade não declarada, mas visível no  desprazer que me proporcionavam as aulas  dessa matéria e nas notas que apareciam em minhas provas. Já admiti mais de uma vez que, se meus professores de matemática tivessem levado a sério as leis do ensino no Brasil, eu estava no quinto ano até hoje. Não que eu tenha ido muito além disso, mas ao menos sobrevivi aos números, cálculos e contas com que tive que me defrontar ao longo da vida.

Não desfiz do elogio, antes agradeci muito e sinceramente. E só não retribui, dizendo que ele havia sido meu melhor aluno de matemática (no que ele certamente teria acreditado) porque de repente mais um gole podia trazer-lhe a lucidez de volta e lembrá-lo de que eu fui, sim, seu professor, mas de português. Ou talvez, por causa do nevoeiro etílico, eu estivesse sendo confundido com algum colega que lecionasse aquela matéria que despertava no rapaz tão boas lembranças a meu respeito.

Deve acontecer com todo profissional que lida com muita gente, como é o caso dos professores, ser mais lembrado do que lembrar. Quando alguém me faz a tradicional pergunta “lembra de mim?”, quase sempre concluo que se trata de um ex-aluno. De alguns recordo claramente: nome, colégio, série. De outros, tenho vaga lembrança, pelo menos sei que já vi aquela cara antes, embora agora me pareça um tanto mais amadurecida. De uns poucos, sinto muito, mas me esqueci completamente. Alguém poderá supor que ter sido bom ou mau aluno, comportado ou bagunceiro, influi nessas lembranças ou na falta delas. Nada disso: Lembrar ou esquecer são mistérios da memória. Uns ficam nítidos como se no dia anterior tivessem respondido “presente” na hora da chamada. Outros se apagam como se uma poderosa borracha tivesse passado sobre seus rostos.

Mas qualquer encontro com um ex-aluno me faz pensar no professor que fui, nos acertos que tive, nos erros que cometi. Me faz pensar no professor que poderia ter sido, mais amigo, mais consciente do que cada um traz em si de capacidade e limitação, de sonhos e desencantos.  A maioria ainda hoje me cumprimenta amavelmente, outros me esqueceram, alguns talvez simplesmente não queiram lembrar. Pondo todos eles na balança, sinto que valeram a pena as tantas vezes que entrei em sala de aula, o quanto escrevi no quadro de giz, o muito que distribui de exercícios, provas e trabalhos. Foi bom para mim, desejo de coração que não tenha sido ruim para as crianças, os rapazes e as moças para quem lecionei. Aprendi muito com eles, espero que eles tenham aprendido ao menos um pouco comigo. Não fui o melhor professor, nem de matemática nem de nada, mas fiz o melhor que pude e quem faz o que pode não está mais obrigado.

 

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