Dias perfeitos

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 03 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O sr. Hirayama aceita as coisas e as pessoas como elas são

Talvez nem todo mundo tenha paciência para um filme com mais de duas horas e praticamente só um acontecimento: o personagem acorda, arruma seu quarto e vai trabalhar. Volta para casa, dorme, acorda e... a mesma coisa. Mas eu gostei de “Dias Perfeitos”. Mais do que isso, fiquei pensando nele como uma lição a ser aprendida. De maneira sutil, a vida do personagem nos mostra, não “a felicidade”, mas uma forma possível de felicidade.

Cecília Meireles disse que a liberdade é uma palavra que todos entendem e ninguém sabe explicar. A respeito do tempo, declarou Santo Agostinho: “Se ninguém me pergunta, eu o sei; se desejo explicar a quem o pergunta, não o sei".  Igualmente difícil é definir a felicidade. Todos nós queremos alcançá-la, mas, como bem explicou o poeta Vicente de Carvalho, ela “Está sempre apenas onde a pomos / E nunca a pomos onde nós estamos". Pois o dia a dia do Sr. Hirayama é, em si mesmo, uma definição.

Com capricho, o sr. Hirayama arruma seu quarto ao se levantar de manhã, apanha o uniforme que deixou pendurado, limpo e alisado na noite anterior, como se fosse a uma reunião de empresários. Contempla as árvores lá fora e, ao abrir a porta para a rua, olha encantado para o dia que nasce. Sai para trabalhar, e então nos perguntamos qual será o trabalho desse homem tão metódico e tão sereno. Fiquem tranquilos, porque não vou estragar nenhuma surpresa. O filme não nos reserva nenhuma surpresa.

O nosso personagem exerce com dedicação e prazer, até com carinho, a função de limpador de banheiros públicos em Tóquio. No seu esforço de fazer o melhor possível aquilo que faz, chega a levar um espelhinho, com o qual procura alguma mínima sujeira nos cantos escondidos dos vasos e pias. Quando alguém o interrompe, não se irrita, antes se retira e depois volta para esfregar novamente aquilo que tinha acabado de limpar. Um morador de rua dança e ele não o critica, apenas sorri. Surpreende uma conhecida abraçada com um homem e não os julga, apenas se afasta.

O sr. Hirayama aceita as coisas e as pessoas como elas são. Aceita a si mesmo. Leva a vida com simplicidade, satisfeito com seus pequenos prazeres. Almoçar sanduíche no banco da praça; tomar banho num banheiro público, coletivo; fazer fotos em preto e branco com uma antiga máquina com filme e gravar suas músicas prediletas em obsoletas fitas cassete. Não se sente humilhado por limpar banheiros, função que exerce com toda a dignidade, nem se sente solitário por morar sozinho. Vive bem consigo mesmo, contenta-se com o que é e com o que tem.

Um filme diferente, sem carros explodindo, sem casais transando, sem tiroteios nos quais só os bandidos morrem. Apenas esse faxineiro, cujo passado não se conhece, mas que se supõe ter sido muito diferente do presente que ele tão serenamente abraça. Quando a irmã rica lhe pergunta se ele realmente é limpador de banheiros públicos, sem nenhum constrangimento ele move a cabeça em sinal de confirmação.

Eis, pois, o que é a felicidade, na lição desse filme: estar em paz consigo e com os outros, ser feliz com o que se é e com o que se tem. Sem conformismo, sem derrotismo, mas sendo o melhor possível, fazendo o melhor possível, permitindo que seus dias sejam, tanto quanto possível, dias perfeitos.

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Microconto: DISPARO

Mágico amador, esvaziava o tambor da arma antes de fazer roleta-russa.  Até o dia em que, encantado com os aplausos, se esqueceu de tirar a bala.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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