Nem toda mulher quer ser mãe: A escolha que ainda enfrenta julgamentos

No Dia das Mães, cresce o debate sobre autonomia feminina e o direito de não maternar
sexta-feira, 08 de maio de 2026
por Laís Lima*
Foto: Magnific
Foto: Magnific

Em meio às campanhas publicitárias repletas de flores, abraços e homenagens emocionadas, o Dia das Mães também traz à tona uma discussão ainda cercada de tabus: o direito da mulher de escolher não ter filhos. Embora a sociedade tenha avançado em debates sobre autonomia feminina e liberdade individual, muitas mulheres que optam por não maternar ainda enfrentam julgamentos, cobranças e questionamentos constantes.

“Você vai mudar de ideia”, “Quem vai cuidar de você no futuro?” ou “Mas você não gosta de criança?” são algumas das frases que a administradora Mariana Alves, de 32 anos, ouve com frequência. Segundo ela, a decisão de não ter filhos nunca esteve relacionada a traumas e frustrações, mas sim à forma como deseja conduzir a própria vida.

“Eu simplesmente não tenho vontade de ser mãe. E isso não significa que eu não goste de crianças. Eu adoro meus sobrinhos, gosto de brincar, acompanhar o crescimento deles, mas não me vejo exercendo a maternidade em tempo integral”, afirma.

Mariana conta que a parte mais difícil da escolha não é a decisão em si, mas a necessidade constante de justificá-la. “Muita gente acredita que toda mulher nasceu para ser mãe. Já ouvi que sou egoísta, que vou me arrepender ou que estou perdendo a melhor parte da vida. É como se a mulher só fosse completa quando tem filhos”, relata.

Uma cobrança histórica

A associação entre feminilidade e maternidade é antiga e atravessa diferentes gerações. Durante décadas, o papel social da mulher esteve diretamente ligado ao casamento, aos cuidados domésticos e à criação dos filhos. Mesmo com o avanço feminino no mercado de trabalho e em espaços de liderança, a ideia da maternidade como destino natural ainda permanece fortemente enraizada.

Para a psicóloga Cláudia Saraiva, o desconforto social diante da escolha de não maternar revela o peso de padrões históricos que ainda influenciam o comportamento coletivo.

“Estamos inseridos em uma sociedade que carrega valores antigos, nos quais ser mulher é frequentemente associado à maternidade. Apesar das transformações sociais e do fortalecimento do empoderamento feminino, muitos padrões do passado continuam presentes e influenciam as cobranças direcionadas às mulheres”, explica.

Segundo a especialista, a maternidade costuma ser tratada simbolicamente como sinônimo de realização pessoal e afetiva. Quando uma mulher rompe com esse padrão, ela desafia expectativas que foram construídas culturalmente ao longo do tempo.

“Quando uma mulher diz que não quer filhos, isso ainda gera estranhamento porque quebra uma ideia socialmente estabelecida de que toda mulher deve desejar ser mãe”, acrescenta.

Escolhas diferentes, vidas possíveis

A maternidade não é um desejo universal. Enquanto algumas mulheres expressam o sonho de ter filhos desde cedo, outras passam a refletir sobre o assunto apenas na vida adulta, e há também aquelas que simplesmente não se identificam com esse projeto de vida.

Nos últimos anos, mudanças sociais, econômicas e culturais têm contribuído para uma transformação no perfil das famílias brasileiras. Dados do Censo mostram que cresceu significativamente, nas últimas décadas, o número de casais sem filhos no país. 

Além disso, cada vez mais mulheres têm optado por não se casar, priorizando carreira, independência financeira, viagens, projetos pessoais e outras formas de realização. A queda nas taxas de natalidade também acompanha esse movimento. 

Especialistas apontam fatores como instabilidade econômica, aumento do custo de vida, busca por autonomia e mudanças nos modelos familiares como algumas das razões para essa transformação.

Mesmo assim, o debate sobre o direito de não ser mãe ainda avança lentamente. Em muitos ambientes, a decisão continua sendo vista como algo temporário, egoísta ou até imaturo.

Nas redes sociais, porém, mulheres que escolheram a chamada “não maternidade” têm encontrado espaço para compartilhar experiências, trocar apoio e reforçar a legitimidade dessa decisão. Os relatos mostram que, para muitas delas, a escolha não representa rejeição às crianças, mas consciência sobre desejos, limites e responsabilidades.

“Ser mãe exige entrega, responsabilidade e disponibilidade emocional. Não é justo assumir isso apenas por pressão social”, defende Mariana.

Entre julgamentos e convicções

A psicóloga Cláudia Saraiva ressalta que as cobranças sociais dificilmente deixam de existir, mas explica que mulheres que tomam essa decisão de forma consciente costumam desenvolver maior segurança emocional para lidar com críticas externas.

“Na maioria dos casos, a mulher que escolhe não ser mãe conhece e reconhece seu papel na sociedade. É alguém bem resolvida consigo mesma e convicta da própria decisão”, afirma.

Segundo ela, o cenário é diferente para mulheres que desejam a maternidade, mas enfrentam impedimentos por questões de saúde, infertilidade ou incompatibilidade com o parceiro.

“Nesses casos, as cobranças deixam de ser apenas comentários externos e passam a atingir profundamente o emocional, gerando sofrimento, frustração e conflitos internos”, explica.

A especialista destaca ainda que a maternidade deve partir de um desejo genuíno e consciente, nunca de uma obrigação social. “Ser mulher vai muito além da capacidade de gerar filhos. Existem inúmeras formas de realização, cuidado, amor e contribuição para o mundo. Respeitar a escolha de uma mulher é reconhecer sua autonomia, sua individualidade e o direito de construir a própria trajetória sem culpa ou necessidade de validação externa”, pontua.

Saúde emocional e autonomia

Diante das pressões familiares e sociais, muitas mulheres acabam vivendo conflitos internos relacionados às próprias escolhas. Para Cláudia Saraiva, o acompanhamento psicológico pode ser importante tanto para quem opta por não ter filhos quanto para quem sofre com cobranças relacionadas à maternidade.

“A terapia ajuda a fortalecer a autonomia emocional e oferece ferramentas para enfrentar as pressões diárias impostas pela sociedade. Quando existe convicção sobre o desejo de não ser mãe, torna-se mais fácil sustentar essa escolha com segurança e equilíbrio”, afirma.

Ela reforça que cada pessoa deve ter liberdade para construir a própria história sem sofrer imposições externas. “No mundo em que vivemos, as pressões sociais aparecem em diversos momentos da vida. Em alguns casos, elas podem influenciar decisões. Porém, quando isso passa a causar sofrimento emocional e prejuízos à saúde mental, é fundamental buscar apoio para fortalecer-se emocionalmente e viver de acordo com aquilo que realmente acredita e deseja para si”, conclui.

Em uma sociedade que ainda romantiza a maternidade como obrigação feminina, mulheres que escolhem não ter filhos seguem reivindicando algo simples: o direito de decidir sobre a própria vida sem precisar justificar constantemente suas escolhas.

(*) Estagiária com supervisão de Henrique Amorim 

 

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