Fósseis na Foz contras as vozes da Amazônia

O paradoxo brasileiro: enquanto a flotilha amazônica navega rumo à COP30 pelo fim dos fósseis, o Ibama autoriza a Petrobrás a explorar petróleo na costa da Amazônia.
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
por Isabela Braga
Fósseis na Foz contras as vozes da Amazônia

Cercada de muita polêmica, a escolha por Belém, no coração da Amazônia, procura trazer para o consciente coletivo a realidade de uma região que oscila entre a necessidade de manter a floresta preservada, para que a humanidade continue a prosperar, e a realidade de vê-la ser destruída por interesses de ganho de capital de curto prazo. Contudo, os lucros escapam da região, e seus habitantes costumam viver com a ausência de serviços básicos - a Amazônia tem os piores indicadores de saneamento básico no Brasil.

Além disso, ao contrário das últimas edições, neste ano a COP acontecerá em um país de regime democrático, com uma sociedade civil organizada e ativa. Longe dos luxos das convenções em petroestados, esse ano a realidade da Amazônia não deve, nem pode ser ignorada agora. Nem sempre é possível contemplar, em um primeiro momento, todos os desdobramentos que uma decisão pode ter, mas a escolha de sediar pela primeira vez uma Conferência do Clima na região do mundo mais explorada pelo marketing verde, tem o potencial de mobilizar vozes que jamais conseguiram chegar aos microfones da Zona Azul (espaço reservado às negociações oficiais).

Neste contexto, no último dia 11, a flotilha Amazônica Yaku Mama, que significa “mãe água”, deixou a cidade de Coca, na Cordilheira dos Andes do Equador, após realizar, antes do embarque, um ritual no vulcão Cayambe. Serão três mil quilômetros pelo Rio Amazonas durante 25 dias para chegar em Belém às vésperas do início das negociações. Esse movimento tem como objetivo reivindicar o fim do uso dos combustíveis fósseis, o financiamento de políticas climáticas para comunidades indígenas e a participação plena na COP30.

Entretanto, ironicamente, enquanto a flotilha ainda navega em nossa direção, por um meio de transporte que nada emite de carbono, o Ibama libera a licença para a Petrobrás iniciar uma pesquisa exploratória de novos poços de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, que fica na área da Margem Equatorial (Amapá, Pará e Maranhão). Tal exploração é controversa do ponto de vista ambiental, visto que a maior extensão contínua de manguezal (a floresta da Amazônia costeira) vai da costa do Pará até o Maranhão. Adicionalmente, a área do Amapá ao Rio Grande do Norte abriga o maior sistema de recifes do país. Apesar disso, o projeto foi liberado e a estatal usa seus navios-sonda na pesquisa nas águas profundas da costa do Amapá.

Essa dualidade revela que, diante desse cenário, o Brasil ainda pretende manter a “liderança por exemplo”, mas o descompasso entre as políticas nacionais frente às promessas internacionais é evidente mesmo antes da COP. Enquanto no palco mundial o país se compromete com a agenda de ações prioritárias - como triplicar o uso de renováveis e abandonar progressivamente os combustíveis fósseis -, dentro de casa aprova, por exemplo, o Plano Decenal de Expansão de Energia (2034) que prevê 78% de investimento para indústria de petróleo e gás natural e exploração de petróleo.

De fato, neste panorama decenal está a exploração efetiva da Foz do Amazonas, ao passo que as negociações vislumbram um ano de 2035 com neutralidade de carbono e o início do processo de transição energética justa – que não reproduza a exploração predatória que marcou os últimos séculos. Nesse sentido, a participação inédita da sociedade civil, incluindo os integrantes da flotilha, no próximo dia 10, assume um simbolismo ainda maior na busca pela coerência entre as decisões já acordadas (e que precisam ser implementadas) e os desafios ambientais que já vivenciamos e precisam ser enfrentados para garantir a vida humana na Terra.

(*) Isabela Braga é bióloga e cientista climática.

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TAGS: cop30