Valdirene

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 08 de julho de 2026
por Robério Canto

─ Alô, é o Paulinho?

─ Sim. Quem fala?

─ Alberto. Tudo bem, Paulinho?

─ Até que estava, Alberto­. São quatro da manhã, domingo!

─ Eu te acordei? Me desculpa. É que eu preciso da tua ajuda.

─ Claro que acordou, Alberto: Esse é o meu número. Tem que ser coisa muito urgente, pra você me ligar de madrugada.

─ Eu queria saber se você tem notícia da Valdirene.

─ Notícia de Valdirene?! A essa hora?!   Francamente, Alberto! O que que houve?

─ Ela saiu depois do almoço, e até agora não deu as caras. Não atende o telefone. Nada.

─ Como é que eu vou saber de Valdirene? O marido dela é você.

─ Mas você é o meu melhor amigo, se algum conhecido nosso soubesse alguma coisa, podia ter ligado pra ti. 

─ Olha o relógio, Alberto: quatro da madrugada.

─ Quatro da manhã? Nem lembrei que era domingo.

─ Vai dormir, Alberto. Daqui a pouco, Valdirene aparece e explica tudo direitinho.

─ Não consigo dormir. Nervoso, uma pilha. Você tem aí um Rivotril?

─ Eu não tenho Rivotril coisa nenhuma, Alberto. Por que você não telefona pras amigas dela?

─ É que eu não quero fazer escândalo, Paulinho.

─Talvez Val foi dormir na casa da mãe dela.

─ Em Portugal?

─ Ah, é! Então liga pra Giovanna, aquela amiga maluca que ela tem.

─ Maluca é elogio. Louca varrida, isso sim. Vai ver foram pra Búzios. Podiam ter me avisado.

─ Deve ter sido isso. Dorme sossegado, Alberto. Val não é nenhuma criança, daqui a pouco ela dá notícia. Volta pra cama e sossega.

─ Vou dar uma passada aí. Talvez você tem um Rivotril esquecido na gaveta.

─ De jeito nenhum, não me apareça aqui, eu vou é dormir. Faz o seguinte, Alberto. Toma duas doses daquela cachaça maravilhosa que você tem em casa e vai dormir.  Amanhã Valdirene vai te mandar uma foto na praia, pegando sol na areia. São quatro da manhã, Alberto. Se alguma coisa grave tivesse acontecido, a gente já sabia. Vai dormir. Valdirene é uma pessoa muito confiável. Com certeza se esqueceu de avisar aonde ia.

─ Não sei se você sabe, Paulinho. Te acordei, não foi? Me perdoa. Ela era caixa de supermercado quando eu conheci. Agora virou madame, toda empetecada, salto alto. E faz isso comigo. Eu devia saber que não podia confiar nela.

─ Alberto, fica calminho. Não fala assim da tua esposa. Ela não merece, é uma mulher direita.

─ Eu também achava que era. Te acordei mesmo?

─ Não, você tá falando com uma alma do outro mundo. Vai dormir, Alberto. Me deixa dormir também.

─ Eu não tinha a quem recorrer: você é meu melhor amigo.

─ Claro, tudo bem, na paz.  Amanhã a gente conversa. Me manda notícia da Val.

─ Me deixa passar rapidinho aí, amigão. Você está sozinho?

── Claro que estou. Eu moro sozinho. E não vejo razão para você me aparecer aqui, bem no meio da noite. Não ia pegar bem. Eu já te disse que não sei de Valdirene.  Toma um banho, vê um pouco de televisão e vai pra cama. Valdirene é gente boa, moça de muito caráter. Dorme, que amanhã ela se explica.

─ Você acha? Sei lá! Tá bom, vou tomar a cachacinha que você falou. Qualquer coisa, me avisa, ok?

─ Com certeza. Boa noite.

(Paulinho desliga o telefone)

─ O que está acontecendo, amor?

─ É aquela besta do teu marido. Esse cara não tem nenhum bom senso. Ligar a essa hora pra perguntar se eu sei de você. Eu é que vou saber da tua vida?  Depois liga e dá uma acalmada nele. Agora vamos dormir, que ainda são quatro da manhã. E hoje é domingo.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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