Histórias autobiográficas

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 07 de julho de 2026
por Tereza Malcher

Esta coluna foi inspirada na frase de Fernando Pessoa “a vida que se vive é menos real do que a que se pensa e se escreve” (Livro do Desassossego, escrito pelo heterônimo Bernardo Soares), que me fez pensar nas diferenças entre vivenciar, refletir e escrever sobre experiências. Pensar sobre a vida é um momento que exige solitude, estado de estar só de forma voluntária e positiva, muito diferente da solidão, que é um estado de sofrimento e vazio.

A frase me fez buscar significados em Nietzsche, que descreve o estar só como um momento especial de liberdade, superação e criação, espaço necessário para a construção de um caráter forte e distanciado das próprias ilusões e das emanadas pelos outros e o grande “Outro”. Ele escreveu, na sua obra “Assim falou Zaratustra”, que “é preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante.

Quem escreve uma autobiografia, como fizeram Gisele Pelicot, em “Um hino à vida”, Rita Lee em “Rita Lee: uma autobiografia” e Tamara Klink em “Nós: O Atlântico em solitário”, pode ser observador da própria história e deixar de ser ator do próprio filme para se tornar diretor. Ser também capaz de tomar decisões com maior clareza e racionalidade a partir do autorrelato em que se concedeu o direito de descrever e avaliar as próprias experiências e percepções, sentimentos, ações e reações, desejos e realizações.

Quando temos a coragem para escrever a nossa própria história, vemos com mais cuidado os passos que demos ao longo dos caminhos que percorremos durante os diferentes momentos que vivemos. A questão não é situá-los entre o que acertamos e erramos, mas refletir sobre como os rumos que tomamos. Ah, como somos imperfeitos! O ato de escrever supera os meandros das reflexões. As palavras registradas são expressões da língua mais aprofundadas do que as pensadas. Escrever é a possibilidade de o autor ver suas ideias concretamente, superando o plano abstrato das ideias. O pensamento é ágil, intenso, reúne ideias com sentidos diferentes que se unem, se chocam e se afastam em cadeias repetitivas. Já o ato de escrever delimita pensamentos, reorganiza-os e cria prioridades.

A autobiografia é um processo de escrita que faz com que o autor se depare com as situações e os sentimentos mais difíceis e dolorosos, embora sejam importantes para o processo de superação, reavaliação e valorização dos fatos que marcaram nossa trajetória. A vida é rápida, passa instantaneamente e vai largando pedações de afetos e lembranças pelo caminho. Como é importante parar para pensar e suspirar, rir e chorar. É como admirar a paisagem em toda a sua beleza, perigos e acidentes geográficos. Sentar-se no alto de uma colina e verificar as possiblidades para descer, percorrendo novos caminhos. Pensar e escrever sobre a vida experimentada é um dos atos mais inteligentes que uma pessoa possa vir a ter.

Uma querida amiga, Lenah Oswado Cruz, escreveu “A voz do tempo”, em que conta sua trágica história de vida. Quando ela estava escrevendo, disse para a Sally, outra grande amiga, e para mim: “preciso escrever minha história para continuar a viver”.

Quem já não desenhou a própria linha do tempo, coloriu os momentos de conquista e derrotas, contornou os desejos realizados ou não, ressaltou pessoas com quem conviveu, enfim, criou um quadro com afeto e arte para depois escrever a própria história na primeira pessoa e usou o “eu” como o maior herói ou vilão?

Eita, que desafio!

Ao escrever “Um cão cheio de ideias”, foi-me sugerido escrever cartas para o Labareda, o protagonista da história. Fiquei pasma. O meu personagem canino era cheio de certezas, incisivo, apresentava críticas diversas ao modo como eu estava conduzindo a história e me deu sugestões. Quando escrevemos sobre nós, abrimos as portas do desconhecido que existe em nós. Se inconsciente ou não, são energias vivas que ficam, silenciosamente, nos rondando, influenciando e até determinando o que vamos fazer e como.

Enfim, a literatura nos salva até de nós mesmos!

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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