Uma só voz

Vinicius Gastin

Esportes

Jornalista e apaixonado por esportes, responsável pela coluna de esportes do Jornal A Voz da Serra desde 2012, dando vez a todas as modalidades esportivas de Nova Friburgo e região. Também é radialista e está à frente do jornalismo da Rádio Friburgo FM.

sábado, 04 de julho de 2026
por Vinicius Gastin

Por que a Copa mobiliza milhões de brasileiros?

O futebol é capaz de mover multidões, reforçar sentimentos e unir nações de forma única. O Paraguai, por exemplo, teve um feriado nacional, nesta semana, após a vitória contra a Alemanha. No Brasil, dependendo dos horários, os jogos da Seleção mexem com o funcionamento de setores, altera a rotina das cidades e interfere de maneira única com a emoção dos torcedores. A cada Copa do Mundo, ruas ganham bandeiras, famílias se reúnem para compartilhar costumes e tradições que atravessam gerações.

Mais do que uma competição esportiva, o torneio representa um fenômeno social capaz de despertar sentimentos de pertencimento e patriotismo. O movimento da “remada viking” da torcida da Noruega, adversária do Brasil, neste domingo, 5, é um dos grandes símbolos de apresentação da identidade de um povo durante o evento.  Mas por que o futebol exerce tamanha influência na forma como os brasileiros enxergam a si mesmos e ao país?

Para o historiador Rodrigo Rainha, a resposta está ligada ao próprio processo de construção das identidades nacionais. Segundo ele, nações não são realidades naturais, mas construções históricas, políticas e culturais que precisam de símbolos capazes de gerar identificação entre pessoas que, muitas vezes, jamais se conhecerão.

"O futebol se tornou uma das linguagens mais poderosas da identidade brasileira. Ao longo do século 20, especialmente a partir da popularização do rádio e da consolidação das Copas do Mundo, o esporte ajudou a criar uma narrativa coletiva sobre quem somos, transformando vitórias, derrotas e ídolos em elementos da memória nacional", explica.

Ele destaca que grandes eventos esportivos funcionam como espaços de representação simbólica. Neles, atletas e seleções passam a carregar expectativas e sentimentos que vão muito além das quatro linhas.

"Durante uma Copa do Mundo, milhões de pessoas experimentam simultaneamente uma sensação de pertencimento. O indivíduo que muitas vezes não se sente representado por instituições ou pela política encontra, no futebol, uma oportunidade de compartilhar emoções e se reconhecer como parte de uma coletividade", afirma Rainha.

Um fenômeno de entretenimento

Embora reconheça a importância social do futebol, o professor alerta para o risco de reduzir a ideia de nação apenas a símbolos, imagens e manifestações ocasionais de patriotismo. Segundo ele, a sociedade contemporânea transformou os grandes eventos esportivos em fenômenos globais de entretenimento, cercados por publicidade, redes sociais, produtos licenciados e estratégias de marketing que reforçam determinadas narrativas sobre identidade nacional.

"A emoção do torcedor é absolutamente legítima e verdadeira. O problema surge quando o patriotismo se limita ao consumo de símbolos ou quando a imagem do país passa a ser mais importante do que a realidade vivida pelos brasileiros.

A camisa da seleção pode unir momentaneamente, mas não substitui os desafios relacionados à educação, à cidadania ou à redução das desigualdades", observa.

Para Rainha, o patriotismo manifestado durante as competições esportivas não deve ser desprezado. Pelo contrário: ele pode representar uma importante experiência de conexão social. No entanto, o desafio está em transformar esse sentimento em compromisso com a construção de uma sociedade mais inclusiva.

 "O patriotismo que aparece nas arquibancadas, nos bares e nas ruas é uma demonstração legítima de pertencimento. Mas o amor ao país não pode se limitar aos 90 minutos de uma partida. O verdadeiro desafio é transformar essa energia coletiva em responsabilidade com a vida cotidiana, com a democracia, com a diversidade e com o bem-estar da população", destaca.

Em um país marcado por profundas diferenças sociais, econômicas e regionais, o futebol continua sendo um dos poucos elementos capazes de reunir pessoas de origens distintas em torno de uma experiência compartilhada.

Para o historiador, esse fenômeno ajuda a explicar por que a seleção brasileira permanece ocupando um espaço simbólico tão relevante no imaginário nacional.

"A Copa do Mundo nos lembra que ainda somos capazes de sentir juntos. O desafio é fazer com que esse sentimento de coletividade ultrapasse o campo e se transforme em compromisso com a construção de um país em que mais brasileiros possam se reconhecer como parte da mesma história", conclui Rodrigo Rainha.

Foto da galeria
Brasileiros se mobilizam, nos mais diversos lugares do mundo, para acompanhar a Seleção em campo (Foto: Erick Maciel)
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