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2026: Começaremos o ano com o “Pé na Cova”

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Antigamente passávamos o Natal brigando sobre política com a família, com amigos e até com desconhecidos. Agora, tudo indica que chegou a hora de brigar com os objetos. Nesta semana, a política brasileira deu uma prévia do que será 2026: um ano de disputas intermináveis, polarização ruidosa e brigas absolutamente idiotas.
A cena seria engraçada se não fosse reveladora. A Havaianas lançou uma campanha sugerindo que se entre em 2026 com os ‘dois pés’ — e não apenas com o “pé direito”, metáfora popular de sorte e bons presságios. Bastou isso para que metade do país enxergasse ideologia, militância e ameaça moral em um pedaço de borracha.
O objeto mais democrático do Brasil foi elevado à condição de inimigo político. Parte da população resolveu brigar contra um chinelo. Sim, contra um chinelo: talvez a veste mais democrática entre todos os brasileiros, presente em todas as classes sociais e regiões do país.
Nada disso acontece no vazio. A mesma semana foi marcada por notícias graves, que em qualquer país minimamente atento dominariam o debate público. Falava-se do envolvimento da esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal em uma consultoria milionária ligada a um banco associado a grandes fraudes.
Falava-se também de deputados flagrados com quantias expressivas de dinheiro em casa, sem explicações convincentes. Em uma semana em que o Congresso pede R$ 22 bilhões em emendas parlamentares, ainda assim, o assunto dominante foi um chinelo. A inversão de prioridades não poderia ser mais simbólica para começarmos 2026 com o “pé na cova”.
Esse deslocamento do foco não é acidente; é método. Talvez seja o retrato mais fiel do Brasil que caminha para 2026. Um país movido por política fanática, identidades rígidas e uma necessidade quase infantil de escolher lados, ainda que artificiais, beirando discussões inimagináveis e quase que infantilizadas.
Escândalos reais disputam espaço com indignações fabricadas como quem briga por atenção em uma sala lotada. Tudo acontece ao mesmo tempo, nada se fixa. O debate público deixa de ser conversa e vira ruído. O que importa já não é a gravidade do fato, mas o barulho que ele consegue produzir.
Vivemos em um país histérico, onde o conflito virou método e também mercadoria. Houve um tempo em que falar besteira causava constrangimento. Hoje, causa engajamento. O exagero rende mais que o argumento, e o ódio, esse sim, nunca falha como produto altamente lucrativo.
À medida que 2026 se aproxima, esse cenário tende a se tornar ainda mais insuportável. Não pelo debate político em si, que é saudável e necessário, mas pela caricatura dele. As discussões deixam de tratar de ideias, projetos e soluções, e passam a girar em torno de símbolos vazios e guerras morais artificiais.
Se hoje brigamos por um chinelo, amanhã brigaremos por um silêncio mal interpretado, um gesto fora de contexto ou uma postagem que não seguiu o roteiro esperado. Qualquer detalhe vira munição. Qualquer gesto vira prova. Qualquer nuance vira ameaça.
O quadro se agrava quando se soma a isso o avanço acelerado da inteligência artificial. Vivemos um tempo em que já não é simples distinguir um vídeo real de um falso, uma fala verdadeira de uma montagem perfeita. A tecnologia não chega para esclarecer; chega para confundir com eficiência.
Áudios inventados, imagens manipuladas e discursos fabricados circularão com velocidade muito maior do que qualquer checagem. A mentira será mais rápida, mais convincente e, sobretudo, mais rentável. A verdade chegará atrasada — quando chegar — pedindo licença para entrar.
Nesse ambiente, a violência política deixa de ser exceção e passa a ser método. Primeiro verbal, depois simbólica, por fim, física. Quando tudo vira guerra, nada parece exagero. Divergência vira ameaça, opinião vira ataque pessoal. O outro deixa de ser cidadão e passa a ser inimigo.
E inimigos não precisam ser compreendidos, apenas combatidos. Foi assim que chegamos a 2022, um dos períodos mais violentos e polarizados da nossa história recente. E tudo indica que 2026 não será uma correção de rota, mas a continuidade desse mesmo espetáculo cansado.
Mario Quintana dizia que exagerar é uma forma de chamar atenção para o óbvio. O óbvio, neste caso, é que estamos exaustos antes mesmo de começar. 2026 promete ser um ano insuportável não pelos desafios reais do país, mas pelas brigas inúteis que escolhemos travar.
Não pela política em si, mas pelo teatro grotesco montado ao redor dela. Um palco permanente de indignações seletivas, conflitos artificiais e personagens que lucram com o caos. Talvez o maior desafio do próximo ano não seja escolher candidatos ou ideologias.
Talvez seja escolher não entrar em todas as disputas oferecidas. Porque quando tudo vira conflito, ninguém vence. E quando o país se ocupa em odiar objetos, sobra pouco espaço para enfrentar problemas reais.
2026 ainda não chegou, mas o ensaio geral já começou — e ele diz muito sobre o futuro que estamos aceitando discutir.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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