A prefeitura do aplauso: festas, futebol e o abandono do essencial

Lucas Barros

Além das Montanhas

Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Há momentos em que a cidade fala mais alto do que qualquer discurso oficial. Nova Friburgo viveu um desses dias ao saber da morte de uma menina de 8 anos em Lumiar, num episódio marcado por um detalhe devastador: não havia ambulância disponível para socorrê-la.

Não foi apenas uma tragédia pessoal, foi um retrato público, cruel e incômodo, da forma como o município tem organizado suas prioridades. Lumiar não é distante do mapa, mas costuma ser distante da gestão. Quando o socorro não chega, o tempo deixa de ser relógio e passa a ser sentença.

A falta de uma ambulância não é um acidente isolado, é consequência previsível de escolhas administrativas que tratam o essencial como despesa incômoda e o supérfluo como investimento político. A morte não aceita justificativas técnicas depois do fato. Enquanto famílias lidam com o irreparável, a cidade segue sendo convidada ao espetáculo.

Recursos públicos são direcionados a carros alegóricos, estruturas cenográficas, iluminação e eventos que duram o tempo de uma selfie. Nada contra a festa — ela tem seu lugar —, mas tudo contra o desequilíbrio. Ambulâncias não rendem aplausos, não aparecem em palanque, não viram propaganda, mas salvam vidas. E salvar vidas deveria ser o mínimo inegociável de qualquer gestão.

A comparação é dura porque é real. Parte do dinheiro empregado em enfeites de fim de ano poderia reforçar a frota da saúde, garantir atendimento contínuo nos distritos, reduzir o risco de novas perdas. Mas o município prefere investir no que brilha, mesmo que só por algumas noites.

Quando a essencial falha, a festa não celebra — ela constrange. E o brilho, nesse contexto, apenas ilumina a falta. O cenário de irresponsabilidade não se limita à saúde.

O vereador Marcos Marins precisou procurar a delegacia para registrar ocorrência após sofrer ameaças. Independentemente de concordâncias ou divergências políticas, quando um vereador é intimidado, a democracia inteira é pressionada. O silêncio do poder público diante disso também comunica.

Comunica descuido, omissão e uma perigosa tolerância com o clima de hostilidade que se instala quando o debate perde o limite. Como se não bastasse, o calendário avança para o fim do ano e traz consigo o recesso. Repartições públicas reduzem atividades, processos administrativos ficam suspensos, respostas são adiadas. A cidade, no entanto, não entra em pausa. Pessoas adoecem, acidentes acontecem, emergências surgem.

O cidadão segue vivendo enquanto a máquina pública desacelera, como se a urgência pudesse aguardar janeiro e como se o sofrimento tivesse data marcada para cessar.

Nesse contexto, causa espanto que uma das preocupações centrais do Executivo tenha sido decretar recesso para que servidores acompanhassem jogos do Flamengo no Mundial Intercontinental e do Vasco, na Copa do Brasil. Não se trata de criticar o futebol, paixão legítima e popular. Trata-se do símbolo. Em meio ao caos, a mensagem transmitida é clara: o espetáculo ocupa o centro, enquanto a gestão se ausenta.

Torcer vira prioridade, governar vira detalhe. E símbolos, na política, falam alto. Há anos clubes cariocas participam dessa competição, chegam a finais, mobilizam emoções. Nada disso é novidade. O que surpreende é transformar isso em agenda administrativa num município que enfrenta mortes evitáveis, ameaças políticas e serviços públicos fragilizados.

Pão e circo seguem sendo a fórmula preferida quando falta planejamento, presença e coragem para enfrentar problemas reais.

O espetáculo distrai, anestesia, cria a ilusão de normalidade. Mas a conta chega. Chega no hospital sem estrutura, na estrada sem resgate, na delegacia lotada, na família que espera socorro que não vem. Governo não é palco, cidade não é plateia, e tragédia não pode ser tratada como dano colateral aceitável da má gestão.

Talvez a pergunta que reste seja simples demais para continuar sendo ignorada: quantas ambulâncias cabem dentro de um carro alegórico? Quantas vidas custam alguns dias de festa? Nova Friburgo não precisa de mais distração, precisa de prioridade. Porque governar não é entreter. Governar é cuidar — especialmente quando tudo grita por responsabilidade.

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Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

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