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No vermelho: o Brasil que vive a prazo

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Se antes o brasileiro brincava dizendo que “dinheiro é um hóspede que nunca dorme em casa”, agora a piada perdeu a graça. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, 30,2% das famílias estão inadimplentes — é o maior índice em quase dois anos. São mais de três em cada dez lares com contas atrasadas, e isso diz muito sobre o país que estamos nos tornando.
Não é difícil entender o motivo. A taxa de juros está em 15% ao ano, e o crédito, cada vez mais curto e caro. O consumidor compra o básico — um eletrodoméstico, um remédio, o material escolar dos filhos — e já sente o peso do parcelamento. E quando a renda não cresce no mesmo ritmo, a conta chega. E chega rápido.
O brasileiro vive num eterno malabarismo: tenta pagar as contas, equilibrar o orçamento e ainda manter um mínimo de dignidade no consumo. Só que a matemática não fecha. Tudo ficou mais caro, o salário não acompanhou, e o cartão de crédito virou o bote salva-vidas que também serve de âncora.
Dívida x inadimplência
É importante lembrar: estar endividado não é o mesmo que estar inadimplente. O endividado ainda paga as parcelas, mesmo com aperto. O inadimplente é aquele que já não consegue mais. E é aí que mora o drama — porque a inadimplência não cobra só juros, ela cobra saúde mental, relacionamentos e noites de sono.
Muita gente hoje trabalha para pagar o que comprou meses atrás. O salário chega, mas já vem comprometido: aluguel, escola, mercado, remédios, gasolina. O dinheiro não circula, apenas passa. E com os bancos encurtando prazos e elevando taxas, o crédito se tornou mais defensivo — um favor caro, não uma solução.
O cartão de crédito segue como o maior vilão, presente em 84,5% dos casos de endividamento. Ele dá a sensação de poder, mas é um poder ilusório. Permite comprar o que o salário não cobre, e prende o consumidor em juros de 400% ao ano. É uma armadilha moderna, vendida com sorriso digital, “cashbacks” e limites pré-aprovados que soam como generosidade, mas escondem o abismo.
Cenário de Nova Friburgo
Em Nova Friburgo, a realidade não é diferente — e talvez seja até mais sentida. O comércio, que já enfrenta meses de vendas mais fracas, sente o reflexo direto da inadimplência. Lojas de roupas, eletrodomésticos e até farmácias relatam que o cliente compra menos, negocia mais e volta a pedir “pra anotar no caderno”. O retrato do comércio friburguense revela uma cidade que se esforça para manter o consumo, mas esbarra na renda curta.
Os números nacionais ganham rosto na serra. São famílias de renda apertada, pequenos empreendedores, autônomos e servidores que perderam o equilíbrio financeiro com o aumento do custo de vida. E veja: falamos de uma cidade do interior, onde o custo é considerado baixo se comparado às capitais. Mesmo assim, o básico pesa. O aluguel subiu, o mercado encareceu, e o cafezinho de fim de tarde virou luxo ocasional.
Por trás desses dados há histórias que não cabem em tabelas. A inadimplência, em Friburgo e fora dela, não é apenas econômica: é emocional. É a mãe que atrasa o plano de saúde, o pai que corta o lazer, o autônomo que não sabe se paga o fornecedor ou o aluguel. É o comerciante que vende a prazo torcendo para o cliente não sumir. O endividamento cobra caro: em culpa, ansiedade e preocupação.
E há um detalhe que passa despercebido: a dívida também isola. Muita gente se afasta de amigos, evita falar de dinheiro e carrega o peso do “fracasso financeiro” como se fosse culpa individual — quando, na verdade, é um problema coletivo, de um sistema que empurra o cidadão ao crédito antes de oferecer condições dignas de renda.
A conta não fecha
A ironia é que, enquanto o brasileiro faz malabarismo para fechar o mês, os lucros dos bancos seguem recordistas. O sistema financeiro não sofre crise: se adapta, se reinventa e sempre cobra. Há tecnologia para tudo — menos para aliviar o bolso de quem vive de salário. O lucro é trimestral; o sufoco, diário.
Nova Friburgo também aprendeu a viver no fiado — do mercado do bairro ao cartão de crédito, a confiança virou moeda. Mas o fiado moderno tem aplicativo, juros compostos e data de vencimento automática. O problema é que a conta, cedo ou tarde, vence. E o boleto que o país precisa encarar não é só financeiro — é moral, social e emocional.
A inadimplência é o espelho de um país cansado. Gente que trabalha, produz, se esforça, mas ainda assim termina o mês com o extrato negativo. Talvez o maior desafio do futuro não seja ampliar o crédito, e sim devolver o fôlego. Porque, no fim, a inadimplência é só o sintoma de um país — e de uma cidade — que há muito tempo não consegue pagar o preço de si mesmo.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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