Depois de muita expectativa para a Assembléia Geral das Nações Unidas e seus eventos paralelos, como a Cúpula do Clima, podemos concluir que a participação do Brasil foi positiva e, além de tudo, produtiva. Como manda a tradição, o presidente brasileiro abre os debates. E no que tange a parte ambiental, o discurso do presidente Lula foi preciso e contundente. Abordou diversos pontos críticos, que já foram temas desta coluna, como o atraso na entrega das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), a necessidade de uma transição energética justa, e propôs soluções de fomento para o desenvolvimento sustentável como o Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF), que será lançado em Belém.
Em contrapartida, o presidente americano, em um discurso controverso, chamou a crise climática de “o maior golpe da história”, disse que as previsões climáticas estavam “todas erradas” e fez um alerta aos outros países que a transição para a energia renovável acabaria com todas as economias. Se confundiu quando sugeriu que a China seria a grande pioneira e fabricante das eólicas e dos painéis solares para o mundo, o que é verdade, sem fazer uso delas domesticamente, o que é uma enorme falácia. Atualmente a China é a líder global em capacidade instalada de ambas as tecnologias e, provavelmente, irá atingir sua meta de 2030 para redução de emissões ainda esse ano.
Mas isso não quer dizer que os problemas de emissões de gases do efeito estufa estão solucionados na China, apenas sinaliza que a sua meta foi tímida demais frente ao desafio climático. E esse foi outro ponto do discurso do Lula: devemos exigir maior ambição das metas de redução por todos, principalmente dos países que hoje usufruem de níveis de padrões de vida muito superiores aos dos países em desenvolvimento, além de um maior acesso às tecnologias renováveis.
Em contraste com as declarações de Trump, as projeções climáticas baseadas em modelos complexos são comparadas com observações climáticas multidecadais e se mostraram fidedignas. Além disso, a Organização Meteorológica Mundial confirmou que os últimos dez anos estiveram entre os mais quentes já registrados. O ano passado foi o mais quente da história, quando a temperatura média global ultrapassou 1,5ºC dos níveis pré-industriais. Disso decorre a urgência na ação climática global.
Entretanto, nesta semana, a publicação de dois relatórios importantes parecem indicar uma contradição nas ações e nos resultados esperados pelos acordos climáticos. Um instituto de meio ambiente de Estocolmo, lançou um relatório sobre a lacuna nas emissões dos países para atingir a meta de Paris e mostrou que a grande maioria planeja aumentar a produção de pelo menos um tipo de combustível fóssil até 2030, o que dobraria os combustíveis fósseis permitidos pela meta de 1.5∘C.
Paralelamente, um instituto de pesquisa alemão lançou seu relatório com indicadores científicos que medem se a Terra ainda opera em condições seguras para sustentar a vida. O relatório indicou que já rompemos sete dos nove limites planetários, com destaque para a acidificação dos oceanos que se encontrava “no limite” e esse ano ultrapassou a fronteira de segurança. Infelizmente as discussões nas COPs em torno desse tema ainda são muito incipientes.
Diante de tantas previsões acertadas e projeções futuras alarmantes, sabemos que as soluções só serão encontradas se estivermos todos na mesma página em relação à urgência climática atual. A COP 30 pode ser instrumental na implementação das negociações que já aconteceram e das que virão. Precisamos ser mais ambiciosos não só nas metas de redução e fontes de financiamento, mas na criação de novas maneiras de monitoramento e cumprimento das metas que estejam vinculados a um conselho da Assembléia Geral e não restrito à UNFCCC. E por ser uma questão de segurança que ultrapassa todas as fronteiras dos países, precisamos forçar uma ampliação do Conselho de Segurança da ONU que hoje contempla com vetos países que divergem em questões fundamentais da crise climática.
(*) Isabella Braga é bióloga e cientista climática.

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