Não quebre a corrente

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 30 de julho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Edwiges é também protetora dos endividados, e pode ser essa a razão de me encaminharem esses papeizinhos

Certa senhora (nunca menciono as senhoras incertas), atualmente meio gorduchinha, teve a gentileza de me ofertar uma simpatia para perder peso. Um tanto descrente dessas fórmulas miraculosas, ainda não coloquei em prática os sábios conselhos ali contidos. Na verdade, tenho medo de ganhar peso e perder simpatia, e esta já é bem pouca. Se bem que, na velha casa dos meus avós, um galho de árvore benzido foi, durante toda a minha infância, uma infalível simpatia contra raios e tempestades. O mundo podia desabar lá fora que nada nos assustava, protegidos que estávamos, senão pelo galho de árvore atrás da porta, ao menos pela fé que tínhamos nele.

Por isso reconheço e louvo a boa intenção dessas pessoas que querem nos salvar a aparência, a saúde e, coisa ainda mais difícil, a alma. Frequentemente encontro na minha caixa de correspondência uma folha manuscrita contendo a “Verdadeira Oração de Santa Edwiges”. Meus amigos, santa poderosa está aí, capaz de fazer milagres que até a Deus custariam algum esforço. Por exemplo, diz a autora (suponho que seja mulher) que, se eu distribuir treze cópias da oração, receberei uma grande herança. Rememoro toda a minha árvore genealógica e concluo que ela não passa de um galho seco. Entre meus parentes laterais, colaterais, ascendentes e descendentes, só encontro gente de bolso vazio. Mas Edwiges é também protetora dos endividados, e pode ser essa a razão de me encaminharem esses papeizinhos.

Mas a carta cita vários exemplos para provar que não está falando sem base. O fazendeiro John Mills, do Ohio, ouviu os bons conselhos e herdou cento e trinta mil dólares de uma tia irlandesa que, ao morrer, teve a feliz ideia de dividir a fortuna entre o gato de estimação e o sobrinho desconhecido. Shiri Panka, do Paquistão, embora sendo budista e não acreditando em Santa Edu, ou em qualquer outra santa católica, resolveu não arriscar, copiou a carta treze vezes com pena de ganso, mandou as cópias para a família da esposa e no dia seguinte encontrou uma dúzia de elefantes em seu quintal. Aproveitou a sorte e abriu uma empresa de transporte. Já o Sr. Adhemar Tírio, do interior da Bahia, recebeu a corrente e jogou-a fora. Resultado: uma semana depois, a sogra mudou-se para a casa do infeliz, acompanhada de um papagaio desaforado. Arrependido, Adhemar Tírio reatou a corrente e, coincidência ou não, a velha morreu na semana seguinte, tendo o papagaio, logo depois, virado galeto.

Realmente, não vale a pena ser cético. Respeitemos, ainda que sem cumprir, simpatias, correntes e tudo o mais com que pessoas de boa fé e boa vontade queiram melhorar nossa vida. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa fã vilania, já disse alguém antes de mim (ou será que a frase não é bem assim?).

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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