Você valoriza seus pais?

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 09 de agosto de 2018

Você valoriza seus pais?

Será que você tem consideração pelo fato de que seus pais cuidaram de você por muitos anos, passando noites mal dormidas, trabalhando duro para lhe dar conforto, estudos, casa, comida? Ou será que você é uma pessoa ingrata para com eles?

É verdade que pais erram com os filhos, mesmo os amando. Você erra também em seus relacionamentos? Se já tem filhos, sua forma de lidar com eles é sem erros? Precisa perdoar seus pais pelos erros deles? Ou ainda guarda ressentimentos, revolta, mágoa?

Os que se rebelam contra o pai ou a mãe estão presos em si mesmos com revolta imatura, ainda dominados por emoções que talvez não se dão conta de quais sejam. São prisioneiros de emoções descontroladas produzidas por revolta talvez justa. São pessoas que reclamam diante de um sofrimento, sem perceber que elas também têm problemas de conduta. Ou até dizem: “É, eu tenho problemas, mas...” E atacam os outros. Não conseguem parar para raciocinar antes de dizer “mas...”, e ver qual é o seu problema.

Você não aceita que seus pais não podiam ter feito melhor na sua educação? Não aceita que eles tivessem limites, medos, inseguranças? Um filho ou filha revoltada contra o pai ou mãe está dizendo, sem necessariamente usar palavras: “Meu pai (mãe) tinha que ter sido perfeito! Tinha que ter sido um deus para me livrar dos sofrimentos! Não aceito meu pai (mãe)! Não aceito minha dor.”

Aceitar os limites de alguém próximo a nós não é condescender com a injustiça, ou acostumar com o sofrível. É aceitar a realidade de que todos temos limites. É aceitar, finalmente, nossa dor e ver o que fazer com ela agora de maneira melhor, ao invés de seguir como um rebelde crônico, perdendo a luz da vida, se machucando sem precisar.

Para alguns isso é difícil de aceitar porque talvez na mente deles há um desejo narcísico de amor, de aceitação. É como se tivesse um letreiro aceso na cabeça destas pessoas, com a frase: “Como é que você ousa não me tratar, não me amar como eu quero?”

Para um filho rebelde se libertar de sua dor precisará perdoar o pai, a mãe, entendendo que eles fizeram o melhor que podiam. Algumas pessoas são tão dominadas por sede insaciável de aprovação e amor, que talvez nunca aceitarão o que os outros podem lhe dar. Outras, ao se humilhar diante da verdade, dão os passos necessários para obter paz interior, que envolve aceitar que não há ninguém que pode nos dar tudo o que queremos. Ou seja, cada um precisa aprender a lidar com seu próprio vazio, sua angústia, parar de culpar alguém ou algo, e agarrar-se ao Grande Criador para que Ele dê a cura que está disponível ao que crê, ao que aceita Suas normas e as obedece, sem rebeldia, mas com humildade. E nós temos a escolha da conduta a ser adotada: rebeldia ou aceitação.

Muitas vezes não sabemos nada das dores e sofrimentos de nossos pais. Pode não ser fácil perdoar seu pai ou sua mãe porque eles podem ter sido negligentes ou abusivos. Mas ao perdoá-los, surge paz em sua mente, e isto não significa que você concordará com os erros deles. Significa que a mágoa e o ressentimento não mais dominará sua vida.

Uma mulher disse: “Meu pai alcoólico tinha ataques de fúria que pareciam dirigidos a mim. Eu vivia sempre com medo dele, e me defendia atacando-o primeiro. Daí, tinhamos brigas violentas. Levei este comportamento para outros relacionamentos. Quando eu não latia me defendia simulando indiferença, levando as pessoas a pensarem que eu era esnobe. Me protegia, mas me privava de amizades reais.”

“À medida que me sentava nas salas de Al-Anon (grupo de ajuda para familiares de alcoólicos) semana após semana, pouco a pouco vim a crer que eu podia falar do fundo do coração e não ser desprezada. Ouvi tópicos de reuniões sobre medo e raiva, e fiz a conexão com a razão por trás da minha necessidade de atacar primeiro. Eu tinha medo. Não demorou muito para eu compreender que talvez meu pai tivesse latido para mim por também ter medo. Esta percepção não significa que eu podia ignorar meus sentimentos sobre os abusos verbais do passado. Quando trabalhei no meu medo e minha raiva de meu pai, percebi que ele era só alguém com as mesmas emoções que eu. Em vez de dois cães rosnando, éramos só duas pessoas com defeitos. É mais fácil fazer amigos quando não estou latindo para eles!” (Editado de “A Esperança para Hoje”, Grupos Familiares Al-Anon, p. 257, 2005).

Perdoe seus pais. Valorize o que eles fizeram por você. Acabe com a revolta contra eles. Liberte-se do passado.

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