Vida em movimento

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 03 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Mudanças impõem movimento na vida. Sejam elas voluntárias ou forçadas. Sejam desejadas ou inesperadas. Fazem parte da vida. Não há como evitar..., e nem como classificar cada mudança em “para melhor” ou “para pior”.  Vejo que é movimento e movimentar, pensando bem, é viver.

Reflito sobre isso enquanto observo caixas empilhadas na sala de alguém que decide trocar de casa, ou ainda quando vejo alguém de malas no aeroporto, prestes a partir. Mudança, física ou não, é sempre transbordo: de espaço, de rotina, de certezas. E se, no primeiro olhar, parece só bagunça e ruptura, em silêncio ela sempre guarda um convite — o de se reinventar.

Você já se viu paralisado diante de mudanças inesperadas? Às vezes, é como se alguém tivesse tirado o chão sob nossos pés. O que era confortável não existe mais. E o medo se veste de previsibilidade: queremos que tudo permaneça igual porque acreditamos que ali estamos seguros. Só que não estamos. Não necessariamente. Pode ser que estejamos apenas imóveis, e a vida pode pedir bem mais do que estagnação.

Tem momento pra tudo. Pra gritar e silenciar. Pra correr e repousar. Pra impulsionar e aguardar. Pra chegar e partir. Pra decidir ficar como está. Até isso é movimento. Não fazer nada é decidir permanecer e isso também é movimentar-se. A vida pede movimento. Pede o vento que desloca as folhas e também o que leva embora aquilo que já não serve. Pede o tempo que empurra os ponteiros sem nos perguntar se estamos prontos. Pede coragem para atravessar pontes que não voltam a ser as mesmas depois de pisadas.

As grandes mudanças não chegam sempre anunciadas. Às vezes, vêm sutis, quase imperceptíveis: o café que já não tem o mesmo gosto, o trabalho que perdeu o sentido, a energia que se esgota, o corpo que pede descanso ou novidade. Outras vezes, vêm em explosões: um amor que se despede, uma porta que se fecha, um recomeço inesperado.

No fundo, não importa como chegam. Mudanças são o lembrete de que estamos vivos. Quem não se move, endurece. Não tem jeito. Querendo ou não. E não falo apenas de grandes transformações. O simples gesto de mudar o caminho de todos os dias pode abrir novos encontros. Mudar um pensamento repetido pode clarear horizontes. Mudar o ritmo pode devolver leveza ao corpo.

É claro que nem sempre é fácil. Movimento incomoda. Mudança bagunça. É preciso desapegar do que parecia certo. É preciso confiar no invisível, aceitar não ter todas as respostas. Às vezes, é preciso suportar a travessia escura para, só então, reconhecer a beleza da manhã.

O que aprendi — e ainda aprendo — é que resistir ao movimento não nos impede de mudar. Apenas nos torna mais pesados. Quando aceitamos, quando nos deixamos levar pelo fluxo, descobrimos que a mudança pode ser, sim, um presente.

Há dias em que tudo parece desmoronar, mas, quando a poeira baixa, entendemos que aquilo era a vida abrindo espaço para o novo. Como quem reorganiza uma sala cheia de caixas: no meio da bagunça, há promessa de recomeço.

Mudanças e movimento são isso: convites. Convites para sair do lugar comum, para olhar o céu de outro ângulo, para habitar um corpo que já não é o mesmo, para permitir que a vida seja mais do que rotina repetida. E quando alguém me pergunta se tenho medo de mudar, confesso: tenho. Todos, temos. Mas aprendi que o medo não é inimigo — é só um sinal de que algo está vivo em nós. Afinal, só sente medo quem está prestes a atravessar.

No fim, é o movimento que nos faz. Somos feitos de ciclos, de idas e vindas, de encontros e despedidas, de fases da vida. E, se prestarmos atenção, perceberemos que toda mudança é também um gesto de esperança. Porque quem muda acredita que há sempre algo a ser encontrado do outro lado. Talvez seja isso que a vida pede de nós: não perfeição, não certezas, mas disposição para o movimento. Porque é nele que a vida realmente acontece.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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