O ano já tinha começado

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Todo ano eu ouço a mesma frase: “Depois do Carnaval eu começo”. Como se janeiro e fevereiro fossem uma espécie de prólogo da vida, um tempo em que nada conta muito. Um intervalo tolerável para adiar decisões, planos e responsabilidades. O problema é que, quando o Carnaval passa, a sensação não é exatamente de começo. É de atraso.

Enquanto as pessoas empurram o ano com a barriga, o calendário segue implacável. O trabalho não espera, os prazos não entram em clima de folia, as contas continuam chegando. A vida não suspende o expediente só porque tanta gente resolve tratar os primeiros meses como aquecimento.

O pós-Carnaval tem algo de interessante, na minha percepção. Ele traz lucidez. De repente, março chega com cara de cobrança. Não porque algo novo começou, mas porque finalmente percebemos que já deveríamos estar em movimento há algum tempo.

Talvez a gente goste tanto dessa ideia de “ano que começa depois” porque ela nos dá um álibi confortável. Um motivo socialmente aceito para não fazer agora. Para não decidir, não mudar, não enfrentar. Afinal, “ainda é começo de ano”. Só que o tempo não reconhece esse acordo informal. Ele passa do mesmo jeito.

O ano começa quando a rotina volta, mesmo sem entusiasmo. Quando a motivação falta, mas a gente vai assim mesmo. Quando entendemos que mudança raramente vem com empolgação — quase sempre vem com disciplina, constância e um certo cansaço no meio do caminho.

Depois do Carnaval não é recomeço. É espelho. Ele mostra o que ficou pendente, o que foi adiado, o que continua exatamente no mesmo lugar. E isso incomoda, porque tira da gente a fantasia de que ainda dá tempo de começar “direito”.

Se o ano já começou, a pergunta não é mais “quando eu vou começar?”, mas “como eu vou seguir daqui pra frente?” Sem culpa pelo que ficou para trás. Sem promessas grandiosas demais. Apenas com a consciência de que adiar a própria vida nunca foi uma estratégia muito inteligente.

Depois do Carnaval, o ano não começa. Ele continua. E cabe a nós decidir se vamos apenas correr atrás do tempo, ou finalmente caminhar junto com ele. É isso, o ano já tinha começado. A questão é quando a gente resolve acompanhar.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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