Murro em ponta de faca

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Por que resolvi me abster de discutir sobre política nesse momento? Está certo que não tenho gosto para discussões. A cabeça esquenta, os nervos saltam e é necessário fazer o exercício constante de autoconsciência para não esquecer de que o pensamento é livre, que devemos respeitar opiniões diversas (e adversas), que cada um tem sua base e vivências próprias e que muitos sequer sabem o que dizem. Ao mesmo tempo, tenho a plena certeza de que falar sobre política, se interessar pelo assunto, traçar diálogos, expor fragilidades, apresentar soluções e debater formam um caminho extremamente importante tanto no processo de evolução social quanto no democrático.

Aquela expressão “dar murro em ponta de faca” tem sido vivificada a cada instante. Não se convence uma pessoa radical expondo simplesmente um discurso antagônico. Se um estranho pensa diferente de mim, por que vou achar que é minha opinião quem vai convencê-lo de que a certa sou eu? Quanta pretensão. Se a divergência está dentro de casa, adianta discutir, brigar com pessoas queridas para impor uma verdade que não é unânime?  Certo e errado. Bem e mal. Tudo é muito relativo. Depende do ângulo. Depende da formação. Depende de fatores que levam uma vida para serem construídos. Depende de valores éticos e morais, experiências pretéritas, projetos futuros, conhecimento de causa.

Por um lado os debates retratam uma esperança. O povo está atento. Os cidadãos acordaram, entenderam seu poder. A vontade de melhorar o país está tomando as ruas. A democracia está sendo defendida em amplos campos. A importância disso é inquestionável. Por outro lado, estamos vivendo tempos em que muitas pessoas estão com sangue nos olhos, semblante sombrio, sentimento de raiva, uma necessidade veemente de se impor, de expressar sua ira, de tirar o véu do respeito e invadir o livre arbítrio do outro de forma grosseira, ofensiva, impositiva. Ando vendo pessoas transfiguradas, exalando fúria e disparando uma metralhadora de informações desconexas, agressivas e muitas vezes mentirosas. Isso assusta. E eu indago se isso é saudável.

Às vezes tenho vontade de dizer para algumas pessoas que pensem em sua saúde. Que ódio faz mal de verdade. Que o processo eleitoral acirra os ânimos, é extremamente valioso mas que os embates saudáveis podem ser mais eficientes. E inteligentes. E ainda preservam as relações.

Pergunto sinceramente: alguém muda de opinião quando outra pessoa impõe sua verdade de maneira radical? Creio que para muitas pessoas essa metodologia funcione. Mas para mim, essa tática é vã. Chover no molhado, sabe? Dispêndio de energia. Me convença com argumentos, com propostas claras, com um ponto de vista bem estruturado, com uma opinião sincera, com uma postura respeitosa em relação aos adversários. Me ajude a sentir esperança em um futuro melhor, a crer de verdade que esse processo pode significar alguma mudança. Me apresente programas, me conte sobre feitos, contribua de forma coerente para a formação de minha opinião. Pois do contrário, não perca seu tempo. Não me convenço por falas cheias de rancor, por discursos dicotômicos, pelo dedo enfiado na ferida aberta das pessoas. Desconfio de radicalismos. Esmoreço com inflexibilidade, com pensamentos que não mudam, com falas desacompanhadas de ouvidos.

Por fim, devo dizer que apesar do uso da primeira pessoa do singular nesse texto, não falo de mim propriamente. Não sou eu. Quero dizer pelos tantos que estão optando por essa postura quase incomum de se abster de falar (e não de pensar, obviamente) nesse momento. Desejo expressar que tal conduta também é genuína. E deve ser respeitada. Aliás, o voto é secreto.

A participação política é muito mais ampla do que o posicionamento explícito. Os eleitores não são obrigados a contar ao mundo qual a escolha feita sob pena de serem rotuladas por adjetivos esquisitos. Há diversas formas de se ter postura ativa no processo democrático. Há maneiras de gritar a insatisfação sem usar propriamente a voz. Há vozes que não falam. Vozes que são atos, práticas, manifestações outras que podem ser também muito eficientes. Vozes que são o dia a dia, o pragmatismo, a postura. Não entrar no embate pode ser uma estratégia inteligente de autopreservação que em nada desmerece aqueles que livremente fazem essa opção.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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