Depois da chuva

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
por Paula Farsoun

As tragédias retiram as camadas de verniz social e nos colocam diante do que realmente somos, enquanto indivíduos e coletividade. As fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata mineira nos últimos dias trouxeram enxurradas, deslizamentos, perdas humanas e materiais. Trouxeram também o peso do silêncio nas cidades alagadas, o cheiro de barro nas casas invadidas pela água, o desamparo de famílias que, em poucas horas, viram a rotina ser arrastada pela correnteza. Vidas ceifadas, do nada. Famílias que perderam seus entes queridos. Lares derretidos. Comerciantes que fecharam as portas sem saber quando reabrirão. Trabalhadores que perderam documentos, móveis, memórias. Crianças fora da escola. Estradas interrompidas. Pontes comprometidas. O cotidiano suspenso.

Já vivemos isso aqui na Região Serrana. Somos friburguenses e nos arrepiamos com trovões, tememos as chuvas e guardamos no peito sequelas de perdas inenarráveis. Sabemos a dor que é. O cenário de barro e medo nos é familiar. Infelizmente. Mas se há algo que me chama atenção nessas situações extremamente sensíveis e tristes, é que em meio ao caos, há um movimento de solidariedade que nasce quase instintivamente.

A solidariedade não é discurso. Não é postagem. Não é frase bonita em rede social. Solidariedade é gesto. É colo. Conforto. Ação para minimizar a dor do outro. É o vizinho que oferece abrigo. É a igreja que vira ponto de arrecadação. É o pequeno empresário que, mesmo com prejuízo, doa parte do estoque. É a professora que mobiliza alunos para recolher mantimentos. É o desconhecido que separa roupas em bom estado porque entende que dignidade também se doa.

Nós, que trabalhamos de alguma forma com a palavra sabemos que conceitos podem ser fáceis de definir. Difícil é vivê-los. Praticá-los. Solidariedade não é pena. Não é caridade vertical. É reconhecimento de humanidade comum. É compreender que a vulnerabilidade do outro poderia ser a nossa.

As enchentes e os deslizamentos de terras escancaram também problemas estruturais que muitos insistem em tratar como exceções: ocupação irregular, ausência de planejamento urbano eficaz, drenagem insuficiente, falta de políticas preventivas consistentes. Toda tragédia climática é, em parte, natural. Mas suas consequências comumente são sociais.

E é justamente nesse ponto que a solidariedade precisa ultrapassar o emergencial. Doar água e colchões é urgente e indispensável. Mas também é necessário cobrar planejamento, políticas públicas sérias, investimento em infraestrutura e prevenção. Solidariedade madura transmutada em compromisso.

Vivemos tempos de individualismo performático. Cada um fechado em suas próprias urgências. No entanto, basta a chuva cair com força desmedida para lembrarmos que somos vulneráveis. Que somos interdependentes. Que cidade não se constrói sozinho. Que comunidade não se sustenta sem laços.

Talvez a grande lição das águas seja essa: tudo pode ser levado em minutos, menos aquilo que escolhemos fazer uns pelos outros. Que a lama seque. Que as casas sejam reconstruídas. Que as escolas reabram. Que as estradas sejam refeitas. Mas que a solidariedade não seja passageira como a enxurrada. Que ela permaneça. Que ela se transforme em cultura, em política, em responsabilidade coletiva.

No final das contas, enquanto sociedade, o maior desafio não se resume à intensidade da chuva que enfrentamos, mas a forma como decidimos atravessá-la. Com o desejo de que as coisas melhorem, que vidas sejam salvas e que desfechos trágicos sejam prevenidos, estimamos que a solidariedade não seja apenas resposta efêmera, mas escolha permanente de quem decide construir, todos os dias, uma sociedade que não abandona os seus quando a água baixa.

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.