Um homem bom

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 14 de abril de 2026
por Tereza Malcher

A vontade de escrever a respeito de uma pessoa boa nasceu durante a leitura do livro “O Colibri”, obra escrita por um dos mais importantes romancistas italianos da atualidade, Sandro Veronesi, tendo seu primeiro lançamento em março de 2019. O livro foi ganhador do prêmio Strega, em 2020, principal distinção da literatura italiana. O que me encantou no livro foi o protagonista, Marco Carrera, um homem bom. Será que é simples adjetivar uma pessoa como boa?

Tenho a impressão de que é tão complexo pensar na bondade quando estamos acostumados a viver num mundo carregado de maldades. Até porque o mal usa máscaras belas e sedutoras, cobrindo com criatividade uma personalidade cruel; a malevolência consegue ficar camuflada dentro das roupas de luxo. O mal, bonito pode lhe parecer. Mas o bem some com facilidade nas espumas do mar.

Marco Carrera é o Colibri, apelido que recebeu na infância devido sua baixa estatura. Sua postura diante das agruras o fez belo. Sua história me encantou a ponto de desejar conhecê-lo, apertar suas mãos e aplaudi-lo.  Acredito que o autor teve o intuito de abordar os valores que emergem quase imperceptíveis nos momentos cotidianos, traduzidos pelo modo calmo e sofrido do protagonista de se transformar ante os desafios, de encontrar força interior para seguir em frente e fazer sua vida continuar. Impressiona sua perseverança em ir até o fim, sabendo, inclusive, findar com dignidade. Através da leitura, posso dizer, constatei, mais uma vez, que o viver é a maior e melhor universidade que podemos cursar, cujos mestres possuem poucos buquês de rosas a nos presentear e muitos lenços de cambraia a nos oferecer.

Quem recebe a vida como desejaria? Por acaso, seria uma trajetória cheia de bondades? Perfumada por flores e repleta de facilidades? Não posso afirmar que uma vida boa é apenas legal. É simples demais. Quem fala de bondade está se referindo ao amor, sentimento que reúne os mais nobres valores, que está mais expresso nas ações do que nas palavras. Falar é um ato de dizer um pensamento ou emoção que pode construir, como também ferir e demolir. São pensamentos e sentimentos que exigem “mãos na massa”.

A bondade, quando genuína, não tem intencionalidades. Nasce da vontade, como a rama de cerejeira rosa que surge no meio da mata. A bondade é um ato de generosidade e empatia. Pode ser até que o indivíduo bom seja considerado bobo. Como a bondade é gerada na força de caráter, no autocontrole e na simplicidade, torna-se imperceptível no meio de forças particulares conflituantes, interesses materiais e de poder.

Assim aconteceu, em Florença, com o personagem Marco, que experimentou a vida sem medo e com dignidade. Com uma narrativa brilhante, a leitura de suas sagas familiares, de sua imensa paixão desde os tempos de sua juventude por uma moça e dos seus lutos tocam o leitor adulto. Quem não tem medo de se aventurar vida afora, desvelando a sabedoria? Ah, como aprendemos com a ausência, sempre dolorosa. Quem não sabe o que é abrir a porta de um quarto vazio e ter de descobrir novos sentidos e finalidades?

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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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