Do cauim a aguardente - A vida cotidiana dos índios coroados e puris

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Habitavam a província fluminense nas regiões serrana e noroeste os índios das tribos Coroado e Puri. Vamos conhecer neste artigo algumas práticas culturais e a vida cotidiana dessas tribos sob o olhar de viajantes que tiveram contato com eles no século 19. São eles o mineralogista John Mawe, o botânico francês Auguste de Saint-Hilarie, o pintor francês Jean Baptiste Debret, o paleontólogo, médico, geólogo e zoólogo alemão Hermann Burmeister e o barão suíço Johann Von Tschudi.

Na tribo, enquanto os homens se dedicam tão somente à caça e a pesca, as mulheres e filhos executam trabalhos domésticos como cuidar da pequena roça, da alimentação e da fabricação de vasilhas em cerâmica. Parece que herdamos do indígena o churrasco. Quando as mulheres da tribo recebiam a caça a limpavam, sapecavam e a cortavam em pedaços enfiados na ponta de pequenos espetos. Acendiam o fogo e colocavam os espetos por cima de um braseiro.

Em outra ocasião pegaram um boi a laço, cavaram a terra, fizeram um buraco enchendo-o de galhos e em seguida acenderam o fogo. Quando a madeira se transformava em carvão colocavam sobre o braseiro ardente o pedaço de carne envolvido na pele. Adicionavam mais galhos sobre a carne e ateavam fogo novamente. A carne cozida entre duas brasas conservava todo o sabor de seu suco. Notem que não faziam uso do sal e da pimenta. Existia uma operação que competia exclusivamente às mulheres. Tratava-se da mastigação de substâncias vegetais necessárias à composição das bebidas espirituosas, o cauim, licor com o qual se embebedavam nos seus divertimentos.

As mulheres reunidas dedicavam várias horas consecutivas à mastigação dos grãos de milho. Depois de triturados eram cuspidos dentro de um vasilhame. Esta pasta fermentava na água quente durante 12 a 16 horas. Após essa primeira fase de preparação era despejada em um grande recipiente para novamente fermentar, sendo misturada a uma maior quantidade de água igualmente quente. Durante essas duas operações agitava-se esse líquido com uma vareta. Esse licor espirituoso manipulado sem cessar sobre o fogo devia ser consumido ainda quente. A batata-doce e a mandioca podiam produzir o mesmo resultado. Porém, as mulheres preferiam o grão de milho por ser mais agradável para mastigação. Frutos como a ananás, o caju, entre outros, produziam pela maceração licores extremamente capitosos que os indígenas bebiam com paixão.

Todos os viajantes mencionavam o problema do alcoolismo entre os indígenas produzido pela aguardente, que tem teor alcoólico muito maior do que o cauim.  Os moços não bebiam, os de mais idade faziam-no com moderação e os mais velhos em excesso. Cada um comprava um copo de aguardente e fazia-o rodar de boca em boca até esvaziá-lo. Depois era a vez do outro.

Para se obter o favor de um índio ou mesmo remunerá-lo por um serviço prestado bastava presenteá-lo com algumas garrafas de aguardente. Normalmente quando se presenteava apenas um deles originava-se uma briga geral e o homem ou a mulher que pegava primeiro a garrafa bebia todo o seu conteúdo para não compartilhar com os demais. Dando-se preferência a um deles, os outros do grupo se tornavam insolentes e desenfreados até que obtivessem o mesmo favor. Quando embriagados ficavam agressivos “tornando-se repugnantes e animalescos”, sendo necessário prendê-los.

Os homens e as mulheres lançavam gritos agudos e os espectadores riam como se assistissem a um espetáculo engraçado. Os “negros” gostavam de incitar os índios a beberem ainda mais para divertirem-se com as cenas “de brutalidade animalesca”. Em seu estado inconsciente jaziam embriagados e sem sentido no chão. Ninguém se incomodava com essas cenas. Esse comportamento dos índios dava grande satisfação aos “pretos”, pois se sentiam superiores, assim como os brancos se acham superiores em relação à eles, observou Burmeister.

Para satisfazerem a paixão que tinham pela aguardente trabalhavam nas habitações portuguesas; porém, mal possuíam com que embebedar-se, entregavam-se a indolência. Cenas de decadência dos indígenas como essas descritas pelos viajantes, não contextualizam que a degradação desses povos tinham origem na usurpação de suas terras coletivas por posseiros fazendo uso da violência e pela política de miscigenação incentivada pelo governo.

No próximo mês, vamos conhecer os traços físicos dos índios coroados e puris, sobre suas choças, a moral e o matrimônio nessas tribos. 

  • Foto da galeria

    Homens brancos chegam a tribo dos Puri, presenteando-os com aguardente

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    Litografia dos índios Coroados

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    Preparação do Cauim pelos Coroados

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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