Pais cruéis

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Gente que já estava entregando a alma ao Criador agora está fazendo planos para começar vida nova

Vocês, que acompanham tudo de importante que acontece neste mundo e no outro, certamente leram a respeito do casal americano que recorreu à justiça para expulsar o filho de casa. Depois de resmungar muito e resistir o quanto pôde, o rapaz foi enfim obrigado a deixar o lar paterno, e só o fez quando se viu na iminência de ser levado pela polícia para morar no presídio mais próximo. E presídio americano, sabem como é, não tem as virtudes dos seus correspondentes brasileiros, nos quais o sol nasce menos quadrado para uns do que para outros.

Quem é político, rico ou famoso, ou tem curso superior, mesmo que seja um curso superior de qualidade inferior, pode ter conversas secretas com seus advogados, receber visitas íntimas (belo eufemismo!), fazer uma festinha de aniversário com a família, ou mesmo promover um churrasco para amigos e convidados. Na justiça brasileira, aplica-se a famosa sentença do livro “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell: “Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”. Já os americanos não têm coração: bandido é bandido, ladrão é ladrão, preso é preso, e estamos conversados.

“Pais cruéis”, dirão vocês. E dirão precipitadamente, porque é sempre mais prudente dar razão aos pais. A experiência mostra que, nas divergências familiares, se algumas vezes eles erram, só raramente os filhos acertam. Na dúvida, decida sempre em favor do acusado, ensinam os mestres latinos ou, como dizem nossos doutos advogados, “in dubio pro reo”. Por isso, com relação ao casal que deu um chute no derrière do herdeiro, melhor nos informarmos dos fatos antes de acusá-lo de monstros capazes de jogar os próprios descendentes na rua da amargura.

Se assim fizermos, veremos que, pelo menos neste caso, forçoso é dar razão aos progenitores. O menino que eles estão expulsando já passou dos trinta e, conforme alegaram, não estuda, não trabalha e não arruma o próprio quarto. Lavar a louça, nem pensar. Nem pensar em cortar a grama do jardim. O máximo de esforço que ele faz é levantar-se da cama lá pelo meio dia, lavar a cara e sentar-se à mesa para que lhe seja servido o coffebreak. Depois descansa um pouco no sofá, vê televisão e degusta o lanche da tarde, enquanto aguarda o jantar. À noite, pede dinheiro para dar uma volta, que, afinal, todo mundo tem direito a um pouco de distração. Depois que tudo isso foi devidamente confirmado pelas autoridades, o juiz bateu o martelo: rua!

Há pouco tempo foi publicada uma matéria científica dizendo que atualmente até os 60 anos a pessoa é considerada jovem, o que trouxe grande alívio para muita gente, porque, pela lógica, o começo da velhice fica empurrado lá para os oitenta, oitenta e tantos. Com essa notícia alvissareira, gente que já estava entregando a alma ao Criador agora está fazendo planos para começar vida nova.

Aliás, também saiu na imprensa a notícia de um cidadão sul-africano que, aos 114 anos, é considerado o homem mais velho do mundo. Pois esse quase contemporâneo do faraó Tutankamon (que, aliás, morreu adolescente) diz que está empenhado em parar de fumar, porque, depois de soltar fumaça pelo nariz durante um século, teme que o cigarro venha a lhe fazer mal à saúde, podendo prejudicar-lhe o usufruto dos longos anos que ainda espera ter pela frente. Não é, pois, de se admirar que o jovem posto porta afora pelos pais se considere novo demais para ser abandonado à própria sorte.

Chama-se de nem-nem os jovens da atual geração, porque nem estudam, nem trabalham. O rapaz americano quer dar início à geração nem-nem-nem-nem, que não estuda, não trabalha, não sai de casa e não se dedica a outra coisa que não seja viver às custas do suor paterno.

Soubesse eu ao menos um pouco de latim, terminaria essa crônica citando Cícero: “O tempora o mores”!

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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