Notícias de Nova Friburgo e Região Serrana
Os donos da rua
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
Tenho a esperança de que a ideia sumida reapareça em breve
Sentei (“sentei-me”, corrigiria o imortal Evanildo Bechara, se já não estivesse no céu, dando aula de gramática para os anjos e esquecido dos iletrados aqui da terra), pois bem, sentei-me para escrever e até encontrei uma ideia promissora. Aí, lembrei-me de que estava na hora de Ancelloti anunciar os convocados para a Seleção. Não sou desses que vivem e infartam pelo time do coração, mas também não sou nenhum aluado que não saiba da importância do futebol neste país em que as pernas tortas de Garrinha e as lindas pernas de Marta Rocha disputam o título de as pernas mais perfeitas da nossa gloriosa história nacional. Ponto parágrafo, que o período já está muito longo.
Recomeçando: ouvi os nomes escolhidos, gostei de uns e não de outros e espero que os nossos rapazes acertem mais as redes adversárias do que os adversários acertem as nossas. Sentei-me (agora sim!) de novo, mas já era tarde: a ideia tinha ido embora. Procurei-a por todos os cantos, até atrás do computador passei os olhos e as mãos para ver se a encontrava. Nada de coisa nenhuma. Mas algum anjo bom (ou talvez Evanildo Bechara, grato por eu tê-lo citado) me fez o favor de chamar minha atenção para o barulho lá fora.
As ruas do meu bairro são administradas por dois flanelinhas e, como eles trabalham em tempo integral, de segunda a domingo, com horário extra nas noites de sexta-feira e sábado, as demais autoridades do trânsito se sentem dispensadas de aparecer por lá. Ora, os flanelinhas não existem para cuidar dos interesses dos moradores. Assim sendo, não só permitem, como ajudam os motoristas a estacionarem em qualquer espaço onde seus carros consigam entrar.
Isso é especialmente verdadeiro nos dias de festa, em que as leis do trânsito ficam suspensas no bairro, o caos é permitido e as faixas amarelas existem apenas para enfeitar os meios-fios. Ingênuo que sou desde criancinha, cheguei a reclamar no órgão competente. Mandaram que eu preenchesse um longo questionário e sugeriram que enviasse fotos do local, para agilizar as devidas providências. Mandei-as, inclusive uma que mostrava o local preferido pelos motoristas, por ser o de mais fácil acesso: embaixo da placa que diz solenemente: “Proibido estacionar”. Isso foi no dia primeiro de setembro do longínquo ano de 2025. Até hoje nenhuma das “devidas providências” foi tomada.
Não que eu tenha me conformado, mas sou de paz, fico preso em casa, ou, como diz uma das pérolas do linguajar popular, fico preso do lado de fora (a melhor delas é: “A gente não tinha nada e perdeu tudo que tinha, por causa da chuva”). Continuando: o problema maior é que um dos flanelinhas ─ me disseram que ele é surdo ─ grita pelos cotovelos, enquanto encaminha os clientes para as vagas. Já pensei em pedir a ele que seja menos sonoro, mas se ele não ouve os próprios gritos, as minhas súplicas é que ele não vai ouvir mesmo.
Parece que o direito de ir e vir é garantido pela Constituição Federal, mas aqui no bairro os flanelinhas detêm a concessão desse direito. Enfim, se o estacionamento é um tormento na minha rua, ao menos me ajudou a escrever esta crônica, mesmo sem ter achado um assunto. Mas tenho a esperança de que a ideia sumida reapareça em breve. Veremos.
Robério Canto
Escrevivendo
No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."
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