O relógio da fábrica

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Apenas sessenta segundos, mas pesavam muito no fim do mês

Quem passa pela antiga Fábrica de Rendas, hoje transformada em Espaço Arp, pode ver, no alto de uma de suas esquinas, um relógio empoeirado e mudo. Pioneira da indústria local, a fábrica durou um século e fez parte da vida de milhares de famílias friburguenses. Mas chegou o dia em que, às 6h45, o coração do relógio parou de bater, para sempre desligado do tempo que ele, germanicamente, vigiava com tanto afinco. Para os trabalhadores, ele ditava o ritmo da própria vida: era preciso estar atento ao seu tique-taque imperioso. Um minuto de atraso e perdia-se o dia de trabalho e, em consequência, o repouso semanal remunerado. Apenas sessenta segundos, mas pesavam muito no fim do mês, quando o pagamento chegava emagrecido. Era o peso da ausência, do que faltava, do que vinha a menos. Como pesavam os ponteiros daquele relógio!

Mas tinha seu lado bom, servia justamente para que ninguém perdesse a hora: 6h45 era um alerta. E não só para os que ali trabalhavam: a todos que o consultassem, ele permitia que fossem mais devagar, ou ordenava que apressassem o passo, que corressem para pegar o ônibus, que movessem com mais energia as rodas da bicicleta. Sei de um garoto que todo dia, de manhãzinha, pedalava em frente a ele, rumando para a Ypu, na qual ajudava a transformar peças de couro em cintos e carteiras. “Sebo nas canelas, que só tenho 15 minutos para chegar ao portão!” Quando o garoto voltava para casa, o sol já estava encerrando seu expediente. Mas, como “todo o mundo é composto de mudança”, as fábricas fecharam, e o relógio da Arp calou-se, ficou apenas na memória dos que o conheceram e obedeceram ao seu comando.

Havia ainda outra categoria profissional que se guiava pelo relógio: os carregadores de almoço. Quem se lembra deles? Embora as fábricas tivessem refeitório e oferecessem pratos a preço razoáveis, muita gente preferia a marmita com sabor de casa, saída das mãos da mãe ou da esposa. Então, em troca de modesto pagamento, algumas pessoas levavam as refeições até as bocas a que se destinavam. Os carregadores que tinham mais fregueses davam-se ao luxo de empurrar um carrinho de madeira, no qual cabiam várias marmitas. Que se saiba, nunca ninguém passou fome por causa desses humildes trabalhadores. De quantos poderosos se pode dizer o mesmo?

O relógio, que tanta gente viu passar e tanta coisa viu acontecer, agora está lá, em sua eloquente mudez. Seria bom se os responsáveis pelo Espaço o ressuscitassem, em memória de seus longos anos de trabalho honesto e dedicação exemplar. E nem precisava que ele voltasse a marcar as horas. Bastaria que, limpo e restaurado, ficasse como lembrança de um tempo em que a cidade se movia a pé ou de bicicleta, em que a própria vida não tinha motivos para outras correrias além daquelas impostas pelo deslizar dos ponteiros dos relógios das fábricas.

E talvez não fosse descabido colocar em seu pedestal este verso de Mário Quintana: “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.

Foto da galeria
(Foto: Arquivo Pessoal)
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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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