Na praia

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

quinta-feira, 06 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Olhando o mar. Vai e volta incessantemente, como se fosse... como se fosse o mar. A que mais se pode compará-lo? De repente suas ondas contidas respiram mais fundo, tomam novo fôlego e vêm passar nos meus pés a língua gelada. O inverno estreou há pouco nos calendários do Brasil e a água já está fria, embora este seja um dos cantos mais quentes do país. Imerso em tanta beleza, eu me pergunto se nós, seres que se dizem humanos, temos o direito de poluir essa paisagem com a nossa presença, se temos o direito de pisar nessa areia, tão branca que mais parece uma camada de finíssimo talco suavemente espalhada sobre o corpo da Terra. Como resposta, a natureza exibe o quanto a temos ferido: sobre o verde irisado, boiam manchas escuras, murchas flores, frascos, feitiços, falecidas falena. Ainda assim, ela não perde a majestade. Um passante murmura, mais para si mesmo do que para mim, “Na minha Terra o mar é escuro”. Pois aqui ele é assim, camaleônico. O sol penetra nas dobras de sua superfície e matiza o azul de verde, com laivos dourados.

Afasto os olhos do mar e vejo uma criança que tenta alcançar o outro lado do mundo, cavando um buraco na areia. A pazinha vai fundo, mais fundo, e o Japão nunca chega. A mãe levanta-se da cadeira e vem explicar a filha que os sonhos são assim mesmo: cavamos, cavamos, sem jamais chegar a realizá-los plenamente. Nem por isso eles deixam de valer a pena. Muitas vezes, mais vale a pena sonhar um sonho do que realizá-lo.

A garotinha sai correndo e, visto daqui, seu maiô vermelho parece uma flor exótica que o vento sopra por cima da areia. Logo ela pula em direção aos braços do pai. Ele a levanta e então a menina se transforma numa pipa que começa a alçar voo. Braços abertos, aberto o coração, o sorriso flutuando sobre a cabeça do homem que ergue para o mundo o troféu de sua vida.

Mas nem tudo são flores. Também temos picolé, sorvete, cocada, redes do Ceará, cerveja gelada, miríade de ofertas. Para colocá-las a nosso alcance, meninos que deveriam estar na escola ou brincando nas águas. Mulheres encanecidas de tanto trabalho, escurecidas de tanto andar de uma ponta a outra do sol. E mais os homens humildes, que nos agradecem se lhes permitimos recolher as latas de refrigerantes vazias, como se não fosse deles o favor, ao nos livrarem do lixo que acumulamos em volta de nós.

            Aos poucos, a praia vai se enchendo. Duas adolescentes passam e, por meio de palavras, gestos e risos, contam inutilidades preciosas, banalidades urgentes, segredos que juram ─ por Deus ─ hão de ficar para sempre entre elas e os demais habitantes do planeta. Um casal de namorados se abraça, se beija, se penteia e despenteia, incendeia a areia, a praia arde ao sol do meio-dia. Com ar urgente, as mulheres vigiam os filhos, pensando talvez no futuro que eles terão. Os homens vigiam as pernas femininas que desfilam, mas é melhor não adivinhar o que estarão pensando esses senhores de ar inocente.

O espetáculo é variado, é um texto escrito no ar. Sei o quanto ele ficará empobrecido quando eu finalmente puder colocá-lo no papel. Penso em como seria bom se não precisássemos das palavras, bastando ver e sentir as coisas para poder comunicá-la. O mergulho de um pássaro me tira dessas reflexões e assim me quedo, mais uma vez, simplesmente olhando o mar.

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Microconto: Tratamento

Parecia apenas um resfriado e trataram com chá da vovó, mel e agrião. Depois com internação e alta medicina. Mas a cura veio mesmo com terra por cima.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Imortal desde criancinha, leitor por paixão e vício, justifica sua dedicação à escrita com uma frase de Carlos Nejar: "Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo."

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