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Quando o mundo parece à beira do início do fim

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Às vezes parece que o mundo acorda dividido em dois: os que apertam botões em gabinetes silenciosos, e os que acordam sob o peso cinzento de uma manhã de medo e de cinzas. Hoje, os conflitos que pipocam de um canto ao outro do globo reforçam essa sensação incômoda de incerteza permanente.
O mundo parece funcionar como um campo minado diplomático. Uma declaração atravessada, um ataque “preventivo”, uma retaliação calculada, e o que era tensão vira rapidamente uma crise. O que era crise vira guerra. E o que era guerra localizada passa a contaminar mercados, alianças e populações inteiras. É como se estivéssemos sempre a um passo de algo maior — e pior.
O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã transformou o que parecia regional em preocupação global. O Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo do planeta, tornou-se símbolo de como decisões militares impactam diretamente o bolso de quem nunca participou da decisão. A energia encarece, os alimentos sobem, a economia range.
Em outro continente, a guerra entre Rússia e Ucrânia continua deslocando milhões e redesenhando fronteiras humanas. Nenhuma guerra é a guerra de um único país. Quando bombas caem em uma cidade, o impacto ecoa em cadeias de abastecimento, nos mercados financeiros e nas mesas de famílias que jamais imaginaram sentir os efeitos de um conflito distante.
O conflito que envolve grandes potências deixa de ser um episódio distante quando percebemos que ele atinge o básico da condição humana. Não é apenas petróleo ou território. É água que falta. É energia que some. É comida que não chega. É a escola que fecha porque virou alvo. É a casa que deixa de existir porque estava no lugar “errado”.
Enquanto isso, líderes repousam sob tetos seguros. Em salas fechadas discutem influência, hegemonia, demonstrações de força. Medem poder como quem mede território em um mapa. Do lado de fora dessas salas, o que se mede é luto. É o número de deslocados. É o tamanho da fila por abrigo.
É difícil acreditar que tudo isso se sustente apenas em discursos de liberdade e proteção. Há uma disputa evidente por espaço, por recursos, por supremacia estratégica. Estados Unidos observam a China com atenção calculada. Blocos se reorganizam. Alianças se reconfiguram. Mas, no meio desse xadrez, quem sangra não é o rei — são os peões.
O mais inquietante talvez seja a repetição. As imagens se sucedem até que a tragédia vire rotina. Bombas deixam de ser choque e passam a ser estatística. Mortes se transformam em números que cabem em uma linha de rodapé. E seguimos vivendo como se o mundo não estivesse, de alguma forma, sempre à beira de um abismo maior.
Há um sentimento difuso de fim de mundo que não vem de um clarão único, mas da soma das pequenas destruições e que hoje estão numa escala de poderio bélico nuclear. Da percepção de que os grandes disputam narrativas enquanto os comuns disputam sobrevivência. E de que quem menos decide é quem mais sofre.
Não se trata de ingenuidade ou de negar a complexidade das relações internacionais. Conflitos sempre existirão. Interesses colidem desde que o mundo é mundo. Mas quando o poder se afasta da humanidade, o custo deixa de ser geopolítico e passa a ser moral. E moralmente, estamos diante de um saldo inquietante.
Ainda assim, a história mostra que a humanidade atravessa seus próprios abismos. Talvez o mundo não esteja acabando — talvez esteja revelando suas fissuras com brutal honestidade. O que parece prenúncio do fim pode ser também um chamado à consciência coletiva.
Seguimos trabalhando, criando filhos, fazendo planos simples enquanto decisões gigantescas são tomadas em mesas onde quase ninguém da plateia tem assento. O fim de uma era da “paz” raramente chega com um anúncio oficial. Ele se insinua nos detalhes: na escola fechada, na cidade vazia, na infância interrompida e nas bombas que iluminam a noite.
Talvez o verdadeiro desafio não seja prever o próximo conflito, mas preservar humanidade em meio a eles. Porque, se algo ainda pode impedir que o mundo ensaie o próprio fim, não é a demonstração de força — é a recusa em aceitar que vidas sejam apenas estratégia.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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