Notícias de Nova Friburgo e Região Serrana
O Rio que envelhece em escândalos

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Há quem diga que o Estado do Rio de Janeiro vive à beira-mar — mas a verdade é que ele mora mesmo é à beira de um escândalo. A cada ano, o carioca e o fluminense despertam com a mesma surpresa cansada: mais um político algemado, mais um prédio público em silêncio constrangido, mais uma promessa que se perdeu no caminho até a esquina.
Nesta semana, foi a vez do deputado estadual Rodrigo Bacellar (PL-RJ), presidente da Assembleia Legislativa do estado (Alerj), trocar discursos parlamentares por grampos metálicos nos punhos. O noticiário estampou o nome dele com aquela familiaridade incômoda de quem já viu esse filme antes. E, pior, já vimos mesmo: Pezão, preso. Garotinho, preso. Cabral, preso. Voltam e saem como ondas que sabem o caminho da areia.
O povo, coitado, é que fica tentando recolher os cacos antes que a próxima maré traga o próximo. A história política do Rio parece escrita por um cronista cansado, desses que anotam tragédias com letra bonita só para ver se a gente aguenta melhor. Há escândalo de rachadinha aqui, o envolvimento com milícia acolá, o “mensalinho” ali e um gabinete que funciona como enxugadouro de sonhos públicos. E a verba pública? Nunca está onde deveria estar, por (cof cof cof) “falta de recursos”.
O mais curioso — para não dizer trágico — é que tudo acontece com uma naturalidade de quem prepara café da manhã. O Rio tem essa estranha habilidade poética: transformar escândalos em rotina, investigações em paisagem e indignação em hábito. A gente reclama, mas reclama baixo, como quem teme acordar uma esperança que já dorme há anos. E quando achamos que o absurdo chegou ao limite, ele abre espaço e se acomoda, feito hóspede habitual que não precisa mais bater na porta. É o novo normal!
E enquanto a capital vive esse vai e vem de pulseiras metálicas, o interior acompanha com um suspiro conhecido. Nova Friburgo, com suas ruas de clima europeu e problemas bem brasileiros, não está tão distante dessa coreografia. Aqui também convivemos com suspeitas que se espalham como vento na serra: contratos que o tempo não explica, licitações que somem como neblina ao sol, prioridades que se invertem de acordo com interesses que ninguém confessa e denúncias para perder de vista no mar. A cidade, tão orgulhosa de sua tranquilidade, às vezes finge que certos assuntos não lhe dizem respeito — mas, infelizmente, dizem, e muito.
E basta abrir o jornal para perceber que, entre uma paisagem e outra, o povo fluminense convive com um roteiro tão previsível quanto cansativo: mais um político preso, mais uma operação madrugadora, mais um capítulo de um histórico de denúncias do Ministério Público que insiste em não acabar. E, como sempre, o personagem da vez surge com aquela expressão imóvel, meio indignada, meio ensaiada, jurando que tudo não passa de um grande mal-entendido e que há um inimigo contra ele.
O caso Bacellar é só mais um capítulo da longa novela política do estado.
Mas talvez sirva para lembrar que nenhuma cidade, nenhuma serra,
nenhuma assembleia é grande o suficiente para esconder a verdade para sempre.
E que, cedo ou tarde, todo castelo de areias públicas enfrenta sua onda mais alta.
Afinal, como diria Mário Quintana, “o tempo é um vento que passa e espalha tudo”. Que ele espalhe, então, as máscaras e deixe sobre a mesa apenas aquilo
que o Rio de Janeiro merece há tanto: dignidade, transparência e a paz simples de viver num lugar onde a corrupção não seja tradição.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Deixe o seu comentário