As figuras mudaram, mas a festa continua

Lucas Barros

Além das Montanhas

Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Na última sexta-feira, 5, a Prefeitura de Nova Friburgo anunciou, no Diário Oficial Eletrônico, a abertura de uma licitação milionária para contratar a empresa responsável pela ornamentação do evento natalino de 2025 denominado “Um Encanto de Natal – O Espetáculo de Noel”, com desfiles, em dezembro, na Avenida Alberto Braune.

O certame, marcado para o dia 24 deste mês, terá como critério o menor valor global oferecido. A vencedora vai receber R$ 2.083.613,14, pagos com recursos da Secretaria de Turismo. A licitação prevê não apenas a instalação, mas também a restauração, reforma, transporte e manutenção das peças ornamentais e luminosas.

É um pacote completo, incluindo até mesmo a desmontagem após as festividades. Quem tiver interesse pode acessar o edital no site da prefeitura e participar do pregão eletrônico. Tudo parece organizado em termos burocráticos. Mas quando olhamos para o histórico recente, a sensação é de que os problemas vão muito além do procedimento.

 

Histórico problemático

Nos últimos três anos, os gastos com o espetáculo natalino dispararam: cerca de R$ 4 milhões em 2022, R$ 6,2 milhões em 2023 e, em 2024, valores que ultrapassaram R$ 5 milhões. O Natal virou um negócio milionário para a cidade, com contratações que incluem companhias de teatro, carros alegóricos e enfeites luminosos.

Ao mesmo tempo, denúncias mostram que parte desse dinheiro não surgiu de um planejamento sólido, mas de remanejamentos de áreas vitais e essenciais da cidade como valores disponíveis para iluminação pública e até mesmo saúde – mesmo com um cenário crítico vivido no Hospital Raul Sertã e com repercussão nacional.

Segundo investigações do Ministério Público, verbas federais do SUS e recursos que deveriam ser usados para manter as ruas iluminadas foram realocados para financiar o brilho das festas. Em outras palavras: enquanto faltava lâmpada em poste de bairro, sobrava luz para a Avenida Alberto Braune.

Enquanto hospitais enfrentavam filas e carências, carros alegóricos de Natal desfilavam em grande estilo. Uma troca que pode ser bonita na vitrine, mas amarga na realidade cotidiana da população que precisa diariamente do SUS.

 

Mesma festa, outras figuras

Outro detalhe que chama atenção: tanto o atual quanto o ex-secretário de Turismo já não estão mais à frente da pasta. As figuras mudaram, mas a festa continua. Sai um, entra outro, e o espetáculo continua sendo preparado com cifras milionárias, em meio a escândalos e investigações.

É como se a troca de nomes fosse suficiente para dar ares de renovação, mas, na prática, o jogo permanece o mesmo: gastar muito em eventos, enquanto setores essenciais ficam à deriva, mesmo com tantos escândalos de grande repercussão ocorrendo.

O Ministério Público tem repetido: Nova Friburgo não conta com políticas estruturadas de turismo e cultura. O que vemos, na prática, são eventos planejados no improviso, custeados às vezes com recursos de áreas que deveriam ser intocáveis. Para mudar isso, sugeriu a criação de um Plano Municipal de Turismo e Cultura, com metas claras, diagnóstico técnico e participação da população. A mensagem é direta: parar de remendar e começar a planejar de verdade.

Além disso, recomendou a criação de orçamento próprio e permanente para essas áreas, junto com o fortalecimento do Conselho Municipal de Turismo e Cultura. Com regras claras e transparência, não seria preciso recorrer a cortes em saúde ou iluminação para bancar festas. A cidade poderia, sim, ter eventos grandiosos sem sacrificar o essencial. Mas, para isso, seria necessário planejamento e responsabilidade com o dinheiro público.

 

Um brilho sem luz

Nova Friburgo tem uma história marcada por resiliência diante de crises e tragédias, mas também por escolhas equivocadas. O paradoxo é cruel: enquanto a cidade luta para manter escolas funcionando e hospitais atendendo sem o mínimo de dignidade, continua destinando cifras milionárias para o Natal.

O brilho das luzes muitas vezes serve para esconder a escuridão dos problemas não resolvidos. A prioridade se inverte: a festa vem antes do básico. Não se trata de ser contra o Natal, nem contra a cultura. Muito pelo contrário. Eventos culturais são fundamentais, unem a comunidade e fortalecem a economia. O problema está na forma como são feitos: sem planejamento, sem orçamento próprio e às custas de setores que deveriam ser intocáveis. Saúde e iluminação não são luxo, são necessidades mínimas. E quando essas áreas perdem recursos para financiar o espetáculo, o recado é claro: o desfile vale mais que o essencial.

Talvez a pergunta que todos deveríamos nos fazer seja: que tipo de cidade queremos construir? Uma cidade que brilha algumas semanas ao ano, mas apaga o resto do tempo? Ou uma cidade capaz de conciliar o encanto da cultura com a dignidade de serviços públicos funcionando? O Natal pode, sim, ser um espetáculo. Mas não pode continuar sendo o espetáculo da inversão de prioridades.

Porque, no fim das contas, a cada troca de secretário, parece que só mudam as figuras no presépio, mas o roteiro da festa continua igual.

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Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

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