Notícias de Nova Friburgo e Região Serrana
Entre telhas coloniais e batatas fritas

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
O casarão permanece ali, altivo, como um velho senhor que já viu gerações desfilarem diante de suas janelas. Suas paredes sabem de segredos que não foram escritos, suas telhas já ouviram a canção da chuva incontáveis vezes. Agora, de repente, esse guardião da memória veste um novo adorno: os arcos dourados de uma rede de fast-food que fala a língua da pressa.
Há quem lamente, como se fosse uma derrota do passado. Mas talvez o casarão não tenha se rendido a nada: tenha apenas encontrado outro modo de continuar vivo. Ele, que já foi palco de tantas histórias, agora se abre para outras. Não se apaga o que foi; soma-se o que é. E Nova Friburgo, que carrega em seu nome o paradoxo do novo e do antigo, mostra mais uma vez que o tempo não destrói: ele transforma.
Outras cidades já aprenderam essa lição. Em São Paulo, um prédio histórico abriga o chamado Méqui 1000, onde a arquitetura antiga convive com a logomarca mundialmente reconhecida. No Rio, casarões do centro viraram cafés e livrarias que atraem turistas justamente pela mistura improvável, entre o antigo e o novo.
Em Lisboa, muitas padarias se tornaram pontos de visita obrigatória. Não porque resistiram intactas, mas porque aceitaram a parceria com o tempo. A história da cidade, afinal, não é museu parado, mas dinâmico e dando novos ares ao lugar em que tantas histórias passaram.
O antigo ainda pulsa na cidade em suas praças, nos trilhos da ferrovia esquecida, nas casas coloniais que insistem em sorrir para o presente. Essa memória não se desfaz porque uma fachada ganha outro uso. Ao contrário, ela se multiplica. O casarão do hambúrguer talvez se torne, no futuro, mais lembrado do que se estivesse fechado ou em ruínas. Pois a vida não se conserva na redoma, mas no uso que lhe damos.
Talvez se a Fábrica Rendas Arp não passasse pela reformulação de ser um Open Shopping, suas portas continuariam fechadas apenas às lembranças de quem já passou por lá. E muitas vezes, passava na frente sem nem lembrar que o espaço existia, se contentando em dizer: “já vivi tanta coisa aí por dentro”.
O mesmo para lojas em prédios antigos no centro da cidade, como a Estilo Livre, na esquina da Monte Líbano que possui um prédio lindo e super bem conservado. A verdade é que o coração se apega ao que conhece, como se cada janela da cidade fosse também uma janela da infância.
Talvez por isso seja tão duro ver a mudança de perto. Mas a vida é como um rio: nunca é a mesma de um dia para o outro. O casarão não deixa de ser casarão só porque abriga lanches rápidos. Ele continua sendo espaço de encontro e com um projeto que promete trazer ainda mais visibilidade para um local que estava esquecido.
E há beleza nesse contraste. As telhas antigas, que já testemunharam carruagens, agora veem aplicativos de entrega estacionando na porta. As janelas que um dia guardaram silêncios, hoje refletem o néon da pressa. Não é contradição: é continuidade. Pois aquilo que muda também preserva, de outro modo, a essência do que sempre foi.
Nova Friburgo é o retrato da mudança. Nasceu do encontro de mundos distintos: suíços com brasileiros, montanha com cidade, inverno rigoroso com calor humano. Agora vive mais um desses encontros, e não será o último. Talvez a pergunta não deva ser se o novo destrói o antigo, mas como o antigo ensina o novo a ter raízes. Um McDonald’s dentro de um casarão não precisa ser símbolo de perda: pode ser símbolo de reinvenção.
Um dia, olhando para trás, alguém dirá: “Aqui, a cidade não deixou morrer um prédio. Ela lhe deu outra vida.” O arco dourado não apagou o frontão antigo, apenas o enquadrou de outro jeito. E, nesse convívio improvável, o casarão ganha novas histórias para contar. Pois a cidade, assim como as pessoas, só permanece viva quando aceita se reinventar.
E assim Nova Friburgo segue, equilibrando o ontem e o amanhã. Não se trata de escolher entre a saudade e o desejo, mas de aceitar que ambos cabem na mesma esquina. O casarão e seus novos inquilinos não são inimigos: são capítulos da mesma narrativa. A cidade permanece sendo o que sempre foi — um lugar onde o tempo gosta de se encontrar consigo mesmo, reinventando-se sem nunca deixar de ser memória.
O tempo não apaga os espaços públicos, apenas redesenha. E Nova Friburgo precisa entender isso.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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