Condomínios sociais em Olaria: boa ou má escolha?

Lucas Barros

Além das Montanhas

Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Nos últimos dias, a Prefeitura de Nova Friburgo anunciou a intenção de construir novos condomínios sociais do programa Minha Casa Minha Vida próximo à via expressa, entre os bairros Olaria e Cônego. uma das regiões mais movimentadas e adensadas da cidade.

A proposta, embora celebrada por muitos pela chegada de recursos federais, causou estranhamento entre moradores locais, que reagiram com críticas e preocupação. Não é para menos: trata-se de uma intervenção de grande porte, capaz de alterar profundamente o cotidiano de quem vive e trabalha na área.

Escolha do local

Trata-se de uma intervenção de grande porte, capaz de alterar a rotina de milhares de pessoas e pressionar ainda mais um eixo viário já saturado. Antes de qualquer análise mais profunda, é fundamental entender o contexto urbano da área escolhida e suas limitações evidentes.

A escolha da prefeitura pela via expressa também se apoia no fato de que a região concentra diversos serviços essenciais, sobretudo na área da saúde – um dos requisitos essenciais para que se adeque à proposta. O projeto visa a necessidade de não ter que construir uma infraestrutura em volta, trazendo uma economia de recursos.

As clínicas e unidades de atendimento são um polo fundamental para a população, mas justamente por isso qualquer intervenção de grande porte precisa ser planejada com extremo cuidado, especialmente, em se tratando de um dos bairros – se não o mais – adensado de Nova Friburgo.

Uma análise fria e calculista

A própria via expressa ilustra esse contraste vivido na região. Hoje, ela é um dos principais corredores de circulação, conectando Olaria, Cônego, Bela Vista, Cascatinha e adjacências ao demais locais da cidade. Apesar de sua relevância atual, não é difícil perceber que a região já sofria com problemas antigos: mobilidade precária, drenagem insuficiente, pouca fluidez no trânsito e infraestrutura nos bairros que não acompanhou o crescimento da cidade.

Ademais, o bairro Olaria é um dos mais adensados da cidade com uma população bem relevante em um espaço curto e com problemáticas no bairro que já são conhecidas na região: falta de acesso à saúde, falta de gestão de trânsito, limpeza, entre outros.

Inserir novos condomínios sociais nesse contexto — sem estudos de impacto devidamente apresentados — levanta dúvidas legítimas sobre a capacidade do território de absorver tamanha demanda de pessoas. Em urbanismo, localização não é detalhe: é destino.

Enquanto isso, o bairro Cônego vive um ciclo consistente de valorização imobiliária. Condomínios sendo instalados próximos à via expressa, comércio em expansão, novos empreendimentos e uma sensação de qualidade de vida crescente atraem investidores e famílias que apostam na região.

Uma escolha de local, sem a devida infraestrutura para promover a segurança, poderá pôr em cheque todo o investimento de famílias e empresas no local.  Não por privilégio — mas porque desenvolvimento urbano exige coerência. Uma decisão mal calibrada pode desfazer, em poucos anos, um esforço que levou décadas para se consolidar, especialmente em gestão de espaço e segurança pública.

Cifras para festas, não para infraestrutura

Mais intrigante ainda é observar que, enquanto discute a instalação de novos conjuntos habitacionais em áreas saturadas e em que o próprio morador já passa dificuldades, a administração municipal segue destinando cifras consideráveis a festas, eventos temporários e estruturas que duram poucos dias.

São iniciativas que animam o calendário, mas não deixam legado permanente. Paralelamente, bairros amplos, menos adensados e muito mais aptos a receber habitação popular permanecem com ruas deterioradas, iluminação precária e absoluta falta de investimentos. O contraste dispensa comentários — e provoca questionamentos que a prefeitura ainda não se dispõe a responder – e sinceramente, não vai.

Reconhecer a relevância e questionar o planejamento

O Minha Casa Minha Vida é, sem dúvida, um instrumento poderoso de inclusão. Mas nenhum programa habitacional funciona quando desconectado de planejamento urbano, diálogo com especialistas e responsabilidade técnica.

Nova Friburgo já conhece, e paga caro por isso, o resultado de intervenções improvisadas ao longo de décadas. Repetir o erro em 2025 ou nos próximos anos, não seria apenas um retrocesso: seria uma escolha consciente por negligenciar o futuro.

A pergunta que fica, portanto, não é se o programa é válido — ele é. A questão real é: por que insistir justamente na região que menos comporta esse tipo de projeto? E, talvez mais importante: quem ganha e quem perde quando decisões tão relevantes são tomadas sem o cuidado que a cidade merece?

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Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

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