Projeto foi lançado em 2019, menos de um ano antes da pandemia de Covid ser decretada. No período, o Recicloton arrecadou 5 toneladas de lixo eletrônico e recondicionou equipamentos para que crianças de 14 famílias vulneráveis de Friburgo pudessem assistir às aulas online. Como avalia esse início?
A Reciclotron foi lançada há 6 anos como uma das ações de destaque da 9ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de Nova Friburgo, cujo tema nacional foi "Bioeconomia: Diversidade e Riqueza para o Desenvolvimento Sustentável".
A moeda verde Reciclopontos recebeu destaque na capa de A VOZ DA SERRA, e a adesão da população resultou em descartes de 2,1 toneladas em 3 dias. O sucesso do lançamento impulsionou o trabalho e mesmo durante os períodos mais difíceis das incertezas da Covid, alcançou o resultado esperado e serviu como um marco de validação para o modelo da Reciclotron.
Durante a pandemia, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, a startup realizou a Copa Reciclotron. A cidade foi dividida em 5 regiões com uma escola municipal representada em cada uma, com 21 postos de coleta distribuídos. Quem descartasse mais resíduos seria o campeão da gincana e os equipamentos recuperados doados para distribuição pela escola. A participação das pessoas e empresas foi excelente e ao longo de uma semana, 5 toneladas de resíduos eletrônicos foram descartadas, com vitória de Lumiar, e prêmio para a Escola Acyr Spitz distribuir entre as famílias de maior necessidade para acompanhar o ensino remoto.
Assim, a Reciclotron conseguiu demonstrar de forma concreta como o recondicionamento de resíduos eletroeletrônicos pode gerar impacto social direto, promovendo a inclusão digital de famílias em situação de vulnerabilidade.
O recondicionamento dos equipamentos permitiu que crianças tivessem acesso às aulas remotas em um momento crítico de isolamento social, ao mesmo tempo em que a iniciativa contribuiu para a destinação ambientalmente adequada de toneladas de lixo.
A ação também evidenciou o potencial do modelo circular da Reciclotron em transformar descarte em oportunidade, unindo sustentabilidade e inclusão digital de forma pragmática. Esse resultado fortaleceu a credibilidade do projeto e impulsionou sua continuidade e expansão.
Após a pandemia, quais comunidades continuam engajadas?
O trabalho gerou vínculos permanentes em Friburgo e mesmo após o período crítico da pandemia, diversas regiões continuaram engajadas com as ações. A infraestrutura de descarte evoluiu de postos de coleta artesanais para equipamentos de descarte de variados tamanhos totalmente alinhados às diretrizes do Inea/RJ.
Podemos destacar, por exemplo, o governo, as instituições de ensino, comerciais e sociais, localizadas nos bairros de Ypu, Olaria, Centro e Lumiar. Esses núcleos mantêm práticas regulares de coleta e destinação de resíduos eletrônicos, integrando os pontos de entrega voluntária aos seus calendários de atividades.
Importante mencionar também que as escolas que participaram da Copa Reciclotron, como a Acyr Spitz, demonstraram uma continuidade relevante nas ações, promovendo a cultura do descarte correto e envolvendo pais, alunos e educadores. Essas experiências locais mostram que quando há mobilização comunitária e retorno perceptível dos benefícios, o engajamento se mantém e até se aprofunda.
Há coleta permanente em Friburgo que atinja o propósito da Reciclotron? Em que a parceria com a Prefeitura tem sido eficaz? Existem ecopontos no município?
A Reciclotron tem 8 pontos de coleta ativos em Friburgo. A taxa de reciclagem no município ainda é preocupante devido a diversos limites de educação ambiental e infraestrutura. No entanto, a Reciclotron tem atuado justamente para suprir esse vácuo, com a instalação de pontos de entrega voluntária (PEVs) independentes e o desenvolvimento de novos equipamentos inteligentes de coleta, os smart totens, que são monitorados por sensores de peso e volume. A parceria atual com a Prefeitura é limitada, especialmente em eventos conjuntos, recente instalação de um ponto de coleta na Secretaria de Meio Ambiente e ações pontuais de educação ambiental. Nosso objetivo é ampliar essa colaboração, retomar a Copa Reciclotron para todas as escolas em Friburgo e integrar nossa infraestrutura ao planejamento municipal de resíduos, com foco em dados, rastreabilidade e soluções ESG.
“O Reciclotron foi criado com o objetivo de fomentar a reciclagem e estimular atitudes sustentáveis, para a proteção do meio ambiente, além de promover ações de inclusão digital [etc]…”. Com tem sido esse processo, tem funcionado?
Sim, essa proposta tem funcionado com resultados bastante positivos. Desde o início do projeto, conseguimos montar diversas salas de informática em parceria com instituições sociais e educacionais, como, por exemplo, a Casa Madre Roselli, em Nova Friburgo, e o Instituto Girassóis, em Mesquita, RJ.
Além disso, promovemos oficinas de robótica com o reaproveitamento de resíduos, ações culturais como a mostra “Arte & Atitude”, com exposições na Casa Laura Alvim, em Ipanema, e eventos de inovação como na Rio Innovation Week e no Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) na UFRJ. Esses resultados só foram possíveis porque o modelo da Reciclotron vai além da coleta: ele integra cultura, educação e sustentabilidade com inovação tecnológica. Ao transformar resíduos em valor social e educacional, conseguimos impactar diretamente vidas e formar novos ciclos de consciência ambiental.
Como analisa o problema de resíduos que, por décadas, a engenharia ambiental não conseguiu resolver no Brasil?
A resposta passa por um diagnóstico que transcende a tecnologia. O problema dos resíduos no Brasil não é técnico, mas estrutural e cultural. Temos tecnologia suficiente para tratar, separar e reaproveitar praticamente todos os resíduos gerados, mas faltam políticas públicas integradas, incentivos econômicos consistentes e, sobretudo, engajamento da sociedade. A engenharia, por si só, não dá conta se não houver um ambiente favorável à inovação social e à valorização do resíduo.
Por isso, o papel da educação ambiental e da mudança de comportamento é tão central. O modelo da Reciclotron se baseia exatamente nessa perspectiva: de que só será possível ampliar a reciclagem no país se o cidadão for parte ativa do processo, com incentivo, retorno simbólico e prático, e envolvimento em uma rede que conecta empresas, governos e comunidades.
A participação da Reciclotron, no ano passado, na European Academy of Sciences, na posição de startup líder de inovação, resultou no convite para publicação de um capítulo no livro “Science for Sustainability”, que será publicado em breve pela World Scientific, editora que publica os trabalhos do Prêmio Nobel. O Green Gown Awards premiou exatamente o modelo de engajamento da Reciclotron, como uma abordagem inovadora capaz de ajudar a financiar a transição para a economia verde de baixo impacto, utilizando o lixo como recurso de acesso da população.

Quais parcerias têm sido mais eficazes: com empresas privadas ou públicas?
Ambas têm relevância, mas as parcerias com empresas privadas têm demonstrado maior agilidade e retorno operacional. Muitas companhias já estão mais conscientes da importância de integrar práticas ESG ao seu modelo de negócio e veem na Reciclotron uma oportunidade concreta de gerar valor ambiental e reputacional. Isso facilita desde o apoio financeiro até a instalação de coletores em espaços privados, campanhas de engajamento com colaboradores e até o uso da nossa plataforma como ferramenta de comunicação interna. Por outro lado, parcerias públicas são fundamentais para ampliar o alcance e a legitimidade institucional do projeto.
No entanto, essas parcerias ainda esbarram em burocracias e falta de continuidade nas gestões públicas. Importante destacar também as parcerias institucionais como o Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor que através da iluminação do Cristo no dia mundial de conscientização do lixo eletrônico contribui significativamente para a difusão do ecossistema da Reciclotron, a parceria com a Acianf que acolheu a startup em sua sede e demonstra o compromisso ESG ao mercado. E mais recentemente, a parceria com a Ti Rio que adotou o modelo Reciclotron como matriz de aprofundamento do compromisso socioambiental do setor de TI, no Rio.
Em qual região do município a coleta de eletroeletrônicos é mais ativa?
As regiões com maior nível de atividade são o Centro e o bairro de Olaria. Isso se deve à maior concentração populacional, presença de instituições educacionais parceiras, além de maior acesso à informação sobre as iniciativas da Reciclotron. Nesses bairros, também há maior adesão às campanhas de gamificação e engajamento com o uso de Reciclopontos, o que contribui para uma participação mais ativa de moradores. Importante também destacar o papel da iniciativa Sustent Arp, onde a Reciclotron colabora desde a fundação. Atualmente, o Espaço Arp, abriga o maior equipamento de coleta da Reciclotron, com 3 toneladas de capacidade.
Quais são os resíduos que têm maior saída e reaproveitamento?
Os celulares, notebooks e CPUs estão entre os resíduos mais recebidos e reaproveitados, especialmente porque muitos desses equipamentos ainda possuem valor técnico e podem ser recondicionados para doação ou uso em oficinas educativas. Além disso, periféricos como teclados, mouses e monitores também têm alta taxa de reaproveitamento.
No âmbito da manufatura reversa, placas-mãe, fontes e memórias são bastante valorizadas pelos parceiros homologados que atuam com desmontagem e recuperação de materiais. Aparelhos domésticos como liquidificadores, transformadores, ventiladores, fritadeiras e outros são também muito comuns. Equipamentos maiores como TVs de tela plana, geladeiras, etc, podem ser retirados a domicílio, mediante um pedido de coleta e agendamento na rota.
A Prefeitura oferece apoio logístico para esse recolhimento ou ele é independente?
Hoje, a logística da Reciclotron é totalmente independente. Nós mesmos desenvolvemos uma rede de parceiros logísticos que operam a coleta primária, fazem a triagem e a destinação segura para a indústria de reciclagem. Dessa forma garantimos que não existem desvios dos produtos e cada equipamento destinado é tratado conforme o Decreto 10240 e as demais leis e normas que garantem a segurança do manejo desse tipo de resíduo.
Apesar de conter minerais importantes como os CRM, terras raras e metais nobres, os resíduos eletrônicos também possuem grandes quantidades de metais pesados como chumbo, cadmio, mercúrio, arsênico e outros elementos extremamente tóxicos ao meio ambiente e a saúde humana ou animal. Dessa forma, diferente do vidro, metal, papel, e plástico, os resíduos eletrônicos são classificados como produtos perigosos e só podem ser manuseados por empresas plenamente certificadas.
Ainda não existe um plano logístico integrado com a Prefeitura, mas já tivemos diálogos e colaborações pontuais, visto que existe exigência legal da coleta desse tipo de resíduo e destinação segura. Nossa meta futura é integrar essa inteligência ao plano municipal de gestão de resíduos, oferecendo dados que possam guiar políticas públicas mais eficientes e estratégias de gamificação que possam alavancar o engajamento da população.

Quais escolas fazem parte do projeto atualmente? Elas estão inseridas em quais bairros?
Diversas escolas participaram de ações como a Copa Reciclotron, especialmente da rede pública, como a Acyr Spitz (Lumiar), premiada com equipamentos recondicionados, além da adesão de escolas no Centro e em Olaria. Nosso objetivo é expandir a presença nas escolas através de oficinas, salas de informática com material reciclado, além de atividades artísticas e culturais com resíduos. Para isso, estamos buscando ampliar parcerias com a Secretaria de Educação.
Como a população tem participado, contribuído para a continuidade do projeto?
Os moradores têm um papel central no sucesso da Reciclotron, com 1.456 usuários ativos, em Friburgo, atualmente, gerando cerca de 1 tonelada mensal de descartes. Muitos se tornaram verdadeiros multiplicadores da causa, levando equipamentos até os pontos de coleta, engajando vizinhos e familiares, e inclusive propondo novos locais para instalação de coletores.
A gamificação, através do sistema de Reciclopontos, tem sido um grande incentivo. As pessoas veem valor concreto em suas ações, seja por meio de descontos, doações a causas sociais ou pelo sentimento de pertencimento a uma rede de transformação ambiental.
Existe alguma base de dados com estatísticas sobre esses resíduos coletados e reaproveitados no município?
Sim, a Reciclotron possui uma plataforma digital que registra e organiza dados detalhados sobre o tipo, volume e destino dos resíduos coletados. Esses dados são essenciais não apenas para controle e rastreabilidade, mas também para gerar relatórios que podem ser usados por parceiros e órgãos públicos. As informações incluem histórico de pontos de coleta, tipos de equipamentos descartados, quantidade de materiais reaproveitados e o número de usuários ativos, o que nos permite acompanhar a evolução do impacto ambiental e social gerado.

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